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A demonização do clichê: definindo nossa literatura pela ausência.

Em 2015, recebi em minha casa uma amiga antiga, leitora voraz de todo tipo de romance possível e fã absoluta da plataforma Wattpad. Apesar de ter ficado só três dias, pois veio apenas para poder curtir alguns shows do Rock In Rio, ela conseguiu algo que eu achava impossível: me fez sentir vontade de voltar a escrever meu livro e publicá-lo na plataforma gratuita de autopublicação.

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Eu, que escrevia umas besteiras desde o meu primeiro emprego, aos dezessete anos, me vi fascinada pela ideia de ter leitores para meus escritos. Adotei um pseudônimo, por pura vergonha de não ser “boa” o suficiente, e comecei a publicar meu primeiro romance, Lena (clique AQUI para encontrá-lo na Amazon).

Desde o começo, eu tentei fugir dos clichês: não queria que Lena fosse comparada a Anastásia-Cinquenta-Tons-de-Cinza, Bella-Crepúsculo, Eva-Crossfire ou qualquer uma dessas personagens que, ao meu ver, são todas iguais, feitas no mesmo modelo pré-fabricado. Comecei, então, a esboçar todas as características que eu gostaria de TIRAR de Lena:

Lena não pode querer casar.

Lena não pode depender de um homem.

Lena não pode ser descrita como uma mulher linda e sensual (ainda que, na minha cabeça, ela seja).

Lena não quer ter filhos.

Lena não pode ter um emprego comum, como secretária de CEO (normal, todo mundo tem um emprego desses, né non?).

Lena não tem cabelo liso.

Lena não pode ser hétero.

Lena não pode ser lésbica.

Lena não pode ter uma família toda caucasiana.

Lena não pode ter final feliz.

Lena não pode terminar o livro em um relacionamento.

Lena precisa ser um robô sem sentimentos.

Lena não pode isso.

Lena não pode aquilo.

Chegou um momento em que, de tanto eu fugir dos clichês, acabei caindo de cabeça em um dos mais chatos: o clichê da mocinha de romance totalmente independente, que não quer nenhum relacionamento, mas está apaixonada pelo melhor amigo.

fanfiction-one-direction-cliche-nao-1909619,080520141608Em conversa com duas amigas autoras, M. Sousa e Aretha V. Guedes, autoras de duas séries publicadas na Amazon e no Wattpad, após um sonoro “A VIDA É CLICHÊ, CLARA, ACEITA!”, percebi que estava arrasando com a minha história por conta de um preconceito estúpido. A história, que inicialmente tomava vida sozinha, estava sendo moldada para NÃO ser um clichê, e, cá entre nós, se tem uma coisa que arrasa uma história é você moldar ela com base em um clichê, seja para construir algo em cima dele, seja para FUGIR dele.

Decidi ligar meu lindo botão do dane-se e comecei a escrever do jeito que eu queria, sem me preocupar se Lena estava ou não virando um clichêzão. Ah, fala sério, é meu primeiro livro! Deixa eu escrever do jeito que eu quero, não é mesmo? Isso foi ótimo e ajudou bastante na construção do meu primeiro romance. Terminei Lena contente com o resultado.

Estava tudo lindo, quando notei que, em vários lugares relacionados ao Wattpad (grupos de Facebook, conversas de grupos de Whatsapp, etc.), começaram a pipocar muitas reclamações sobre os clichês em romances. O mocinho sempre é rico. O mocinho sempre é branco. O mocinho sempre tem um membro imenso. A mocinha sempre é desastrada. A mocinha sempre depende dele. A mocinha sempre engravida e casa. O mocinho sempre é babaca. A mocinha sempre é submissa. O mocinho sempre tem um passado sombrio. A mocinha sempre aceita os podres dele em nome do amor. O amor sempre cura tudo.

fabio-209x300Apesar de concordar com a maior parte dessas afirmações, tentei não me envolver muito em alguns desses debates, mas não consegui, é óbvio. Em um desses debates, eu mostrei meu livro para um dos reclamantes. Ora, minha mocinha não é desastrada, nem submissa, nem quer casar, nem depende de ninguém. Meu mocinho é negro, é programador, é super gente boa, não tem um passado sombrio nem nada. Toma, dá uma olhada em Lena, quem sabe você não gosta?

Qual não foi a minha surpresa quando recebi sempre a mesma resposta das pessoas que reclamavam dos clichês? “Ah, legal, Clara! Vou colocar na lista, mas estou muito sem tempo para ler agora.”

UÉ!! Tá com tempo para vir reclamar dos clichês, mas não tá com tempo para ler um livro supostamente SEM CLICHÊS? Qual é a lógica??

Fui notando que, sem querer, os Clichês-Haters caíram em mais um clichê: o de odiar algo só por odiar. “Odeio hot porque é clichê”. “Odeio romance porque é clichê”. “Odeio fantasia porque é clichê”. “Odeio clichê porque é clichê”.

Em geral, todas as reclamações sobre clichê caem em cima de romances ditos “femininos”, ou seja, classificados como literatura para mulher, os famosos “chick-lit” e os infames “hot”. Segundo os Clichês-Haters, não são literatura, são pobres, enredo fraco, escrita bostinha, enfim, são o terror do mundo dos livros.

Nem vou entrar no mérito sobre o que é ou não literatura, pois acho perda de tempo. Quem acha que “hot” não é literatura vai continuar destilando seus preconceitos por aí, e não vai ser um post de uma autora-revisora-leitora-professora-louca que vai mudar isso. Vou me atentar apenas ao fato de que muitos não criticam os livros com clichês porque acham que isso vai causar algum tipo de mudança cultural no país. Não, não, muitos conhecidos meus criticam os clichês porque É BOM TER ALGO PARA CRITICAR!

Um dia desses, uma pessoa veio me pedir uma força para divulgar seu blog de críticas. Pedi para ver o blog e meu queixo caiu: era um blog de críticas negativas! Como o próprio nome dizia (não vou dizer o nome, é claro, mas acredite: era bem explícito), era um blog feito única e exclusivamente para se metralhar os livros “ruins” do Wattpad! Eu, que já estou de saco cheio de gente só fazendo crítica negativa (que é uma crítica diferente da crítica construtiva), agradeci e disse que não estou mais falando mal de livros. Não trabalho mais na ausência, apenas na presença.

“Ah, Clara, mas você diz isso porque não viu o livro X que eu li ontem! Era um horror, cheio de furos, cheio de lugares comuns, cheios de…”

Sim, gente, livros assim sempre vão existir. Mas, me digam: fazer vinte posts em grupos de Facebook apontando para os erros narrativos, os erros linguísticos, os erros temáticos e os clichês dos livros VAI MUDAR ALGUMA COISA? A pessoa que adoooora fazer romance de homem dominador possessivo vai olhar seu post e pensar “HMM, OLHA O QUE ESSE LEITOR DISSE! VOU APAGAR MEUS QUATRO ROMANCES E COMEÇAR UM DO ZERO, POIS ESSE LEITOR ME ILUMINOU COM SUA SABEDORIA CRÍTICA LITERÁRIA!!”?

Sinto lhe informar, meninos, mas, não, a pessoa vai continuar escrevendo o que quer, pois:

  1. (Ainda) É um país livre.
  2. Há público para isso.
  3. É isso que o mercado editorial quer.

“Ai, Clara, mas então o Wattpad, as editoras, as livrarias, a Amazon, tudo vai ficar repleto de romance clichê??”

Vai! E isso é bom! É melhor que se escreva e consuma os romances que os Clichês-Haters chamam de “ruins” do que não se escreva ou consuma NADA! É melhor que um leitor leia 100 livros iguais ao Cinquenta Tons de Cinza do que não leia nada!!

“Mas eu odeio romance clichê!! São ruins, são fracos, não acrescentam nada na vida da pessoa!!”

Então ressalte o romance que você acha bom! Comente nos grupos sobre livros que se encaixam no seu conceito qualitativo! Divulgue autores nacionais que você goste! Dê estrelas e comente nos livros do Wattpad que te interessam! Faça resenhas na Amazon dos que você amou! TRABALHE NA PRESENÇA, NÃO NA AUSÊNCIA!! Deixa os livros que você acha que não são literatura para lá e enalteça o que você acha que é bom!!

1725009_996019790437095_8093291912892763772_n-1Há pouco tempo, o país era um dos países que não lia quase nada, cheio de analfabetos, com pouco incentivo à leitura, blá, blá, blá. Hoje, temos quase um milhão de usuários do Wattpad, aumentamos em 6% a quantidade de leitores nos últimos anos, temos mais de CEM MILHÕES de leitores no Brasil. Imagina quantos autores não estão surgindo desses leitores todos? Não acha isso incrível? Então APOIE ESSES AUTORES! Dê empurrões para cima, não para baixo!

De humilhação, já recebemos demais de editoras que recusam nossos originais, mas se estapeiam nas feiras de Frankfurt em busca de romances que são quase a mesma coisa que os nossos, mas são gringos e garantia de vendas. Lembrando que são elas quem enchem as prateleiras das livrarias de Cinquenta Tons de Cinza e Crossfires, gente. Quer reclamar? Reclame com elas! Peça autores nacionais, peça outro tipo de romance, brigue, demande! Somos nós quem compramos os livros delas!

Enquanto continuarmos trabalhando na ausência (“Esse romance não tem enredo bom, esse romance não foge de clichês, esse romance não tem uma protagonista forte, esse romance não tem estruturas coesivas de qualidade”) e não na presença (“Aquele romance é doce, aquele romance tem uma escrita deliciosa, a estrutura narrativa daquele romance é fluida, aquele romance tem um final impactante”), vamos passar tanto tempo demonizando o que consideramos ruim, que vamos esquecer de colocar os holofotes naquilo que consideramos bom. Não é exatamente o que o mercado editorial costuma fazer? Colocar holofotes no mais vendável, seja ele Crepúsculo ou Cinquenta Tons de Cinza, e ignorar o que não é bestseller ou não tem potencial para ser, sendo ou não um livro que poderia arrebatar corações por aí?

Pois é.



Revisora, autora, embaixadora do Wattpad, professora de português, Kindle-lover, apaixonada por livros indies, autores nacionais, Kimbra, 30STM, Brandon Jay McLaren e RuPaul's Drag Race. Escrevia sob o pseudônimo de Sissy Walker, mas decidiu sair do armário e assumir a autoria de seu primeiro romance, "Lena - Abrindo as Asas".


  • Aretha VGuedes

    Amei a postagem e concordo com tudo dito. A benção e a das redes sociais é a possibilidade de se dizer o que pensa e ter uma resposta imediata das outras pessoas. O que percebo muito é que se um determinado post chama atenção no facebook, seja enaltecendo ou criticando qualquer assunto, outros post iguais começam a surgir por toda a rede. Fato este que ocorre com muita frequência em relação à leitura. Não importa que livro você lê, o importante é o ato da leitura. Se você acha ruim um livro com clichês, leia outro ou escreva o seu próprio livro. Foi isso o que eu fiz! Cansei das mocinhas mocinhas submissas que aceitam ser chamadas de “minha” e adoram ser agarradas à força pelo dominador. Tenho algo contra os livros dessas mocinhas? Não! Eu li tantos que cansei. Fui fazer textão no facebook reclamando? Não, peguei o computador e comecei a escrever um livro cuja personagem principal tinha as características de uma pessoa que eu seria amiga dela na vida real. Tem clichê no meu livro? Claro! Tem clichê na minha vida, por que não teria no meu livro? O importante é ter moderação e bom senso, tanto na vida, quanto na literatura.

  • Manu Sousa

    Simplesmente amei o texto! Clichê é vida!! hahahhahhahahaha
    Sério, gente, quer coisa mais clichê do que uma criatura apaixonada? O amor é o maior clichê que existe, na minha opinião! Não suporto quando vejo alguém querendo empurrar regras goela abaixo nos outros. A escrita deve ser uma fonte de libertação para o escritor. Ficar preso a regras impostas delimita o autor, restringe a sua imaginação. Minha terapia é a minha escrita. Meus terapeutas são os meus personagens. Vamos ser feliz, escritores! Somente assim emocionaremos nossos leitores. Beijão!

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