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Entrevista com Gustavo Magnani, autor de “Ovelha – Memórias de um pastor gay”

O paranaense Gustavo Magnani, de 20 anos, criador do Literatortura, um dos maiores canais de literatura do Brasil, está lançando seu primeiro livro, Ovelha — Memórias de Um Pastor Gay, pela Editora Geração. No livro, um pastor à beira da morte resolve libertar-se, revelando sua homossexualidade em um polêmico relato.

No dia 6 de agosto, Gustavo concedeu uma entrevista para a Encontros Literários, onde fala sobre sua obra, suas influências literárias e seu trabalho no Literatortura. Vamos conferir?

Encontros Literários: Pode falar um pouco de Ovelha?

Gustavo Magnani: Bem, tenho dito que Ovelha é um tipo de livro que não chega às livrarias todos os dias e, acredito, só isso faria valer a pena uma espiada, uma lida.

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Gustavo Magnani, autor de “Ovelha — Memórias de um Pastor Gay” e criador do site Literatortura.

Ovelha conta a história de um pastor gay que, internado num hospital por conta de uma doença e crente de que está condenado ao inferno, decide escrever suas memórias, sendo honesto, ao menos, uma vez na morte. É o relato de um homem que condena aquilo que ele próprio é; e o livro vai em cima disso, do eterno conflito, pra ele, entre religião e sexualidade.

É uma obra que não ergue bandeiras, ele não existe pra humilhar evangélicos e exaltar a causa LGBT. Ele existe porque é uma história que eu, como escritor, acreditei que valeria a pena contar.

EL: E o público tem recebido bem o tema?

Gustavo: Bem, ainda é muito cedo pra eu ter uma compreensão maior do recebimento do público. O que chegou até mim foi apenas maravilhoso. E isso me surpreendeu. Foram elogios em cima de elogios, tanto de autores que eu respeito muito, quando de leitores desconhecidos. Acredito que, nas próximas semanas, terei um panorama melhor para concluir, do grande público, de um público mais distante. A única crítica “negativa”, digamos assim, surgiu numa avaliação do Skoob, onde o leitor deu nota 3 pra Ovelha. Não me incomodo, mas como era o primeiro, fui ver as outras avaliações. E, bem, 1984 estava com 3 estrelas também, enquanto A Cabana tinha ganho 5. Nesse caso, acho que prefiro as 3 estrelas hahaha

EL: E quais são as suas inspirações, tanto para escrever o Ovelha quanto para o seu site, Literatortura?

Gustavo: Bem, o Literatortura é um site em constante mudança, tentando se encontrar, se adaptar, sempre. Minha inspiração pra ele é a internet, o que ela apresenta quase que diariamente.

Pra Ovelha, é difícil identificar inspirações. São muitas. Eu posso ficar na literatura, falando de Machado, que foi onde busquei a estrutura. Posso citar Gabriel García Márquez, que inspirou até um personagem. Ou Raduan Nassar, que me inspirou um dos maiores capítulos do livro. Rubem Fonseca, pela linguagem em muitos momentos… Na vida, em si, meu período na igreja, minha vivência na religião e, sem dúvida, talvez uns dos maiores inspiradores tenha sido a própria bíblia.

EL: A Bíblia, no caso, te ajudou apenas no fato do personagem principal ser pastor, ou em algo mais?

Gustavo: Em tudo. Fora da literatura também. No meu período dentro da igreja evangélica, li a bíblia inteira algumas vezes e ele é uma leitura frequente. Gosto disso. Ela foi fundamental em todas as áreas do livro, na construção do personagem, na construção da história, na construção de alguns capítulos especiais, que eu reconto fatos bíblicos.

Inclusive, para poder questionar a bíblia é necessário ter lido ela. Nesse caso, sua importância também foi gigantesca. Eu jamais saberia quais perguntas fazer se não a conhecesse.

EL: Como falamos sobre suas inspirações, acho que esta pergunta surge automaticamente: além de Machado de Assis e Gabriel García Márquez, quais outros autores você costuma ler?

Gustavo: Putz, costumo ler de tudo. Eu meio que vivo em ciclos de leitura. Tive ciclos da fantasia, ciclos dos clássicos, do terror, do policial etc. Eu gosto de ler tudo aquilo que me interessa, não só pelo prazer da leitura, mas para poder aprender com os escritores, para poder aprender com os gêneros. Então, no terror eu tento aprender a construir um mistério, aquela coisa do medo. No policial, o suspense. Ver e vivenciar as técnicas que os escritores colocaram em seus livros, para que eu possa fazer o mesmo. No momento atual, estou numa fase de contemporâneos, por curiosidade de saber o que os escritores brasileiros estão publicando. Leio muita poesia também. O ritmo da sentença me importa muito e não há lugar melhor para verificar isso do que a poesia. Mas, se é preciso falar em nomes, além dos dois citados, vou de alguns aqui (com certeza, esquecerei vários) Cortázar, Borges, Kafka, Stephen King, Saramago, Colm Toíbin e um que eu já sabia ser genial, mas estou descobrindo melhor agora, David Foster Wallace.

EL: Falando agora do Literatortura: apesar do nome do site, ele fala não apenas de literatura, mas de política, filmes, séries, artes em geral. A ideia sempre foi essa, ou essa variedade foi acontecendo com o tempo?

Gustavo: O site nasceu falando de todos os assuntos relevantes para a sociedade, dentro de uma área cultural ou artística. Muitos leitores que questionam isso, não conhecem o Literatortura. Por exemplo, o primeiro artigo que viralizou foi uma postagem sobre Michel Teló e uma capa da revista Época. Ou seja, tinha muito pouco de literatura e muito de opinião/música/sociedade. Nossa ideia sempre foi oferecer conteúdo literário, mas, também, fornecer uma visão equilibrada e questionadora da sociedade brasileire. Por isso, artigos sobre homofobia, machismo, mídia, política etc. Começamos assim e, se um dia acabarmos, acabaremos assim.

EL: E assim vocês inspiraram este que vos fala a querer começar a escrever também. É bem interessante como vocês estimulam o raciocínio crítico de seus leitores. Parabéns!

Quer mandar um recado para seus leitores?
Gustavo: Eu queria agradecer a todos pelo tempo de leitura. Se não conhecem meu trabalho, acessem o literatortura, me procurem no facebook, eu aceito e converso com todo mundo que chamar. Posso demorar um pouquinho pra responder, mas respondo! haha Assinem o literatortura no youtube e, claro, #LEIAOVELHA #ESPALHEAPALAVRA
EL: Espalharemos!

Gustavo, muito obrigado por disponibilizar um pouco do seu tempo pra essa entrevista! Espero que o sucesso do seu livro (que pretendo ler em breve) seja enorme!
Gustavo: Muito obrigado! Eu quem agradeço pelo convite!

 



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.