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ENTREVISTA COM O AUTOR ERIC NOVELLO

“Neon Azul”, outra obra de Novello. Um Romance Fix Up

Eric Novello é um escritor, tradutor, editor, copidesque e roteirista brasileiro. É carioca, mas reside em São Paulo desde 2007. Seus livros passeiam pela literatura realista, com um toque noir.  Sua primeira obra se chama “Dante, o Guardião”, um romance histórico que une elementos da Roma Antiga de Júlio César e deuses egípcios. Entre podcasts, Eric lançou por último seu tão conhecido “Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues”.

No dia 7 de novembro, Eric concedeu uma entrevista para a Encontros Literários, onde fala sobre tudo o que os fãs mais querem saber.

Encontros Literários (EL): Eric, você já está no mercado há bastante tempo, já é conhecido dos leitores, principalmente por aqueles que andam costumeiramente em blogs literários e podcasts. Com certeza já teve que responder a essa pergunta um milhão de vezes, mas como disse Guimarães Rosa em “Grande Sertão – Veredas”: “O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”. Acredito também que o Eric de ontem não é o mesmo de hoje, e que tampouco será o mesmo de amanhã! Então conta pra gente: Quem é Eric Novello hoje?

Eric Novello: Engraçado você perguntar, porque tenho pensado bastante nisso em 2015. Como autor, foi um ano de ruptura para mim. No início, eu era só alguém tentando publicar um livro por vez. Mas do ano passado para agora entendi que eu tenho um projeto literário de fato, que é explorar diferentes maneiras de desconstrução da realidade, e defini isso como um norte para os próximos trabalhos. É um fio que, de alguma maneira já existia antes mesmo de eu percebê-lo, e que une aqui e ali as histórias que já contei e as que pretendo contar. Foi um momento eureca libertador.

Indo além, minha relação com a literatura anda tão séria que de vez em quando faço as contas de quantos livros ainda conseguirei publicar se viver até tal ou tal idade. O que, maluquices de lado, tem me tornado alguém mais criterioso na hora de definir projetos e escolher no que investir meu tempo.

EL: Eu sei que você teve grande influência do cinema, principalmente dos filmes trash do Stephen King e etc. Você também credita influência a outros tipos de mídia? Quadrinhos, mangás, etc? E se sim, quais histórias e mídias mais influenciam seu trabalho hoje?

Eric Novello: Eu sou influenciado por tudo que vejo, ouço, acompanho. Gosto da filosofia de império romano, algo meio madonnesco, de conhecer, assimilar e transformar. Parte dessas influências é mais óbvia, outra parte só percebo com o tempo.

Alguns exemplos recentes. Tinha acabado de conseguir meu primeiro estágio na faculdade, com 18 anos de idade, e minha orientadora me apresentou a Sandman e Hellblazer. Mais de dez anos depois, vou e escrevo “Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues”, que é fruto dessa influência que ficou em algum canto da minha cabeça, em silêncio, germinando. Outro. Agora que defini meu projeto de desconstrução da realidade entendi o quanto Philip K. Dick foi importante na minha formação como autor. Se você me perguntasse até o ano passado, eu provavelmente o citaria na minha lista de autores favoritos, mas não como uma influência.

O mesmo vale para seriados. Gosto muito da possibilidade que os quadrinhos e séries na televisão abrem de se explorar o desenvolvimento de um personagem no longo prazo. Algo que poderia acontecer no cinema também se as franquias não estivessem condenadas a repetir o mesmo filme pela eternidade. É claro que isso me afetará (já afeta) de alguma forma. Uns seriados mais do que outros – a 1ª temporada de True Detective, por exemplo. E em algum ponto do futuro colherei os frutos disso e poderei racionalizar melhor em cima dessas conexões que vão se formando sem que a gente se dê conta de todas elas.

EL: Há muitos autores de fantasia hoje no mercado nacional. No entanto, acho que posso dizer que seus livros se sobressaem, no sentido de que divergem dos temas e estilos comuns entre os escritores de fantasia nacional, e trazem novidades muito particulares. Essa é minha visão, claro. O que eu quero saber é: Qual a sua visão do mercado nacional de hoje?

Eric Novello: Posso estar sendo pessimista na resposta, mas vejo a fantasia nacional passando por um momento de incerteza. Lá fora, não há dúvida, a fantasia se mostrou como um nicho forte, com material de qualidade, livros nas listas dos mais vendidos e prêmios de respeito dedicados ao gênero. Aqui, depois de um crescimento de mercado e certo interesse do público nos últimos cinco anos, houve estagnação. A maioria das editoras independentes que apostavam no gênero ou fechou as portas, ou adotou publicação paga, ou publica um livro ou dois por ano, de uns poucos autores escolhidos. Falta alguém que consiga unir qualidade a uma proposta de esforço criativo, como fez a Livros do Mal, anos atrás, em outra vertente literária.

Nas editoras de médio porte, é comum o autor ouvir “Tá, seu livro é bom, mas você tem alguma história que não envolva literatura fantástica? Porque, sabe como é, fantasia restringe demais o seu público.” Ou um “Tudo bem, quando você vender que nem meus best-sellers volta aqui que a gente conversa”. E nos grandes grupos, bem, o jogo lá é difícil para todo autor, independente do gênero. Isso falando de autores nacionais, claro.

Conversando com amigos de editoras, perguntei por que eles não apresentavam os lançamentos de fantasia a blogueiros e booktubers, que se tornaram engrenagens importantes de venda e divulgação. Ouvi que “blogueiros não gostam e não resenham fantasia.” Não sei se é um fato ou só mais um sinal de despreparo de quem lida com o gênero profissionalmente.

E entre os leitores, são os autores estrangeiros que nadam de braçada. Daí vivemos uma situação curiosa em que há bons autores surgindo, mas o mercado, que estava quase adotando a fantasia para valer, decidiu voltar a torcer o nariz e falar “hum, quem sabe amanhã?”. Existem casos de sucesso, obviamente. Mas não existe um movimento, não existe coesão.

EL: Muita gente pergunta sobre o seu trabalho como escritor. Mas não só de escritores se faz o mercado editorial. Você mesmo, por exemplo também trabalha com tradução, não é? Conta pra gente: Como é trabalhar com tradução e o que você tem feito?

Eric Novello: Larguei minha profissão anterior e me tornei tradutor para trabalhar com texto em tempo integral e conseguir gerenciar melhor meus horários de escrita. É mais fácil separar uma hora por dia para escrever quando se passa o dia inteiro em frente ao computador. Por cerca de dez anos, foi a tradução técnica que pagou minhas contas. De uns tempos para cá, depois de pensar um bocado a respeito, tenho me dedicado mais à tradução literária.

Meu primeiro convite veio da falecida Editora Underworld, por conta do meu trabalho como autor. A ideia era que meu nome entre leitores de fantasia ajudasse a promover o livro. Mais tarde, comecei a trabalhar para a Gutenberg também e, meio por acaso meio por opção, tenho me dedicado a traduzir livros para o público Young Adult. Uma forma indireta de contribuir para a formação de novos leitores. Por enquanto tem sido muito prazeroso. O fato de trabalhar para editoras de alto padrão ajuda muito nesse ponto! Mais diálogo, mais qualidade, menos estresse.

EL: Muitos escritores dizem que o “objetivo” de seus livros é passar uma mensagem, entretenimento, suscitar um debate ou reflexão, etc. Há uma diversidade de propostas e uma diversidade de autores. Mas para você, qual a “função da literatura”? O que você quer fazer o leitor sentir?

Eric Novello: Quem deve definir a função da sua arte é o próprio artista. Ela pode não ter função nenhuma, pode servir para ajudar a pagar o enxoval do bebê, o aparelho ortodôntico da filha adolescente, ou pode ajudar a mudar o mundo. Tudo é permitido. Cada livro meu, e espero expandir isso para outras mídias, tem uma proposta diferente. “Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues” é um livro de imersão. A ideia é fazer o leitor ir da estranheza à familiaridade enquanto experimenta uma realidade diferente da sua. Já o “Deus Contra Todos”, que deve sair em 2016, pretende colocar o leitor diante de situações desconfortáveis do dia a dia, enquanto o faz refletir sobre os rumos agressivos e de pouco diálogo que o mundo vem tomando.

EL: Você pode falar um pouco sobre como é o seu processo criativo?

Eric Novello: Foram anos de tentativa e erro, mas acho que criei uma metodologia que aumentou minha produtividade sem comprometer a liberdade criativa. Resolvi chamá-la de “construção e desconstrução” e explico o porquê, algo bem simples.

Uma das estruturas básicas de uma história é a sua divisão em três atos. Existem variações, mas essa é a mais comum. Por vir da escola de cinema, tenho o hábito de escrever a escaleta da história, que é um pequeno resumo das cenas e o objetivo de cada uma delas, antes de partir para a escrita propriamente dita. Com a “construção e desconstrução”, eu construo o primeiro ato na escaleta e desenvolvo isso no papel, criando o texto em si, algo mais próximo do livro final. Só a partir daí trabalho na escaleta do segundo ato.

Se alguma ideia mais interessante surgir no processo, vejo o que precisa ser desconstruído do primeiro ato para gerar a coesão com o segundo. Adiar o primeiro encontro de dois personagens? Incluir ou tirar uma trama? Mudar o background de alguém? Esse tipo de coisa. Com os dois atos escritos, parto para o terceiro seguindo o mesmo pensamento.

EL: E para aqueles que estão querendo entrar no mundo da literatura. Que dicas você daria?

Eric Novello: É tanto autor dando dica sobre tanta coisa hoje em dia que nem sei o que dizer. Acho que posso resumir tudo que penso em duas dicas primordiais. A primeira é: não tenha pressa. Não importa o tamanho da sua ansiedade, não publique por publicar. Deixe o livro respirar na gaveta, vá se aprimorando ao longo dos anos, revise sua história, mande para amigos do meio. Tudo menos sair correndo e largar um material de qualidade duvidosa no mercado. A outra é: não desista nunca. E, pode anotar, você terá essa vontade muitas e muitas vezes ao longo da sua carreira.

EL: Seu último livro, “Exorcismos, Amores e uma Dose de Blues”, lançado pela Editora Gutenberg, foi muito elogiado pelos leitores, blogs literários e afins. As resenhas são muito positivas, inclusive. Você pretende ampliar esse Universo que você criou ou quer embarcar numa nova aventura? Você pode falar pra gente o que podemos esperar de Eric Novello para os próximos anos?

Eric Novello: É uma boa pergunta. Não tem um dia em que eu não pense em expandir o magoverso. Tenho muita coisa planejada para ele desde o início. Um plano geral de história que resultaria em quatro livros e um bocado de “ãhn, então foi por isso que aquilo aconteceu”. As sementes plantadas no EADB não estão lá por acaso. Mas tenho pensado se o desgaste de tocar um projeto desses hoje no Brasil vale a pena.

Difícil bater o martelo quanto ao futuro, mas devo me dedicar mais a livros como o “Neon Azul” e o “Deus Contra Todos”, que rompem com a realidade de modo mais sutil e habitam uma fronteira, uma zona cinzenta, com a qual eu gosto de trabalhar. São livros mais curtos, o que me permitiria publicar de dois em dois anos. E com maior aceitação pelas editoras e pelo público. Sem falar na maior facilidade de tradução, adaptação para outras mídias e nas chances maiores de seleção em um concurso.

Nesse meio tempo, a intenção é explorar o magoverso em histórias mais curtas, provavelmente lançadas de forma independente e diretamente em e-book, para não deixar os fãs na mão.

Mas tenha em mente que vida de autor muda de um dia para o outro, basta um e-mail. E eu sou o louco dos projetos, então vai saber.

 

Agradecimentos da Equipe da Encontros Literários: Eric, muito obrigado, pela gentileza de aceitar nos conceder essa entrevista e pela paciência. Estou ansioso por mais novidades suas no mundo da literatura!

PERGUNTINHAS EXTRAS

Eric Novello

1. Qual seu livro de cabeceira? Crash, do JG Ballard.
2. Para quem quiser saber mais do seu trabalho, por onde podem começar a procurar você? Tenho três canais de comunicação principais: No meu site – Clique Aqui – você fica sabendo de todos os meus trabalhos e o que
eu ando consumindo de cultura, livros, filmes, músicas, exposições, etc. Lá você pode se inscrever na newsletter, onde aviso de eventos e lançamentos e destaco alguns links bacanas. E no twitter – Clique Aqui – sou eu falando (e reclamando!) da vida em tempo real, principalmente de tradução e escrita.



Graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Fã de Stephen King e Oscar Wilde, mantenho ainda vivo o sonho de escrever profissionalmente; Amante de cinema, séries, quadrinhos e músicas. Descobri na arte uma forma de suportar a vida.