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NUANCES DO HORROR – ENTREVISTA COM OSCAR NESTAREZ

Oscar Nestarez é um escritor brasileiro que estreou oficialmente no mercado literário em meados de 2013, com sua obra Poe e Lovecraft: Um ensaio sobre o medo na literatura, fruto de sua especialização em História da Arte. É mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, e vem escrevendo e publicando outros livros do gênero horror. Cedeu gentilmente uma entrevista ao site Encontros Literários, que transcrevo aqui na íntegra. Quero agradecer ao Oscar por ter sido tão solícito e atencioso ao aceitar nossa proposta.

Obra de estreia de Oscar Nestarez, lançada em 2013

Encontros Literários (EL): Você pode falar um pouco sobre quem é Oscar Nestarez? E da sua trajetória até chegar hoje a ser um escritor?

Oscar Nestarez: Com prazer. Mas, antes, quero agradecer o convite para a entrevista. Fiquei lisonjeado e espero ser útil.

Nasci em SP em 1980 e, desde que me conheço por gente, rabisco o que me vai na veneta. Eram rabiscos, mesmo, aqueles garranchos paleolíticos que são os nossos primeiros passos no processo de dar forma ao que temos na imaginação.

Eu era o que se podia considerar uma criança “imaginativa”. Desde a primeira infância, passava horas sozinho, fosse a atribuir funções fantásticas a uns poucos brinquedos, fosse a conceber aventuras e mundos implausíveis. Lembro-me de atravessar as madrugadas interpretando personagens heroicas em histórias que inventava, saltando pelo quarto e atazanando meus pais. Eu não precisava de quase nada; uma folha em branco ou uns poucos objetos bastavam pra criar todo um universo mais divertido do que aquele em que eu vivia.

Claro que só me dei conta disso depois de bastante tempo. E de muitas sessões de psicanálise, às quais fui encaminhado quando constataram minhas frequentes “fugas da realidade”.

Mas não vem ao caso; o fato é que, logo depois que aprendi a escrever, abandonei os garranchos rupestres pra dar forma mais precisa aos devaneios. Assim, a escrita foi a via mais sedutora que encontrei para fugir, ou para acessar esse imaginário. E, quando comecei a ler Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft e Clive Barker, percebi que essa via não tinha mais volta.

Inclusive, profissionalmente: formei-me publicitário e trabalhei durante doze anos como redator em agências de SP. Mas a minha paixão sempre foi a ficção. Então, quando fui demitido, em 2013, tomei a decisão que me trouxe a este momento: investir na escrita e na pesquisa acadêmica da ficção de horror.

De lá pra cá, concluí o mestrado em literatura, publiquei “Horror adentro”, meu segundo livro de contos, e concluí a redação de um romance.

EL: Seu livro (Poe e Lovecraft – Um ensaio sobre o medo na Literatura) tem um quê poético. A poesia influenciou você? E para além da poesia, quais suas principais influências?

Oscar Nestarez: Sim. Na verdade, a influência vinha da prosa poética – e muitas vezes arcaica – de vários autores. Lovecraft e Poe, os objetos do livro em questão, seriam as mais óbvias. Mas havia outros que, naquele momento (e alguns até hoje), marcavam-me a ferro e fogo, como William Faulkner, Louis-Ferdinand Céline, Joseph Conrad e Thomas Mann.

Só que devo confessar: hoje, minha relação com “Poe e Lovecraft: um ensaio sobre o medo na literatura” é um tanto problemática. Embora sinta um carinho enorme pelo livro, pela inflexão que representou na minha vida (a publicação me abriu portas para participar de eventos e palestras, levando-me a avançar na pesquisa acadêmica), o texto me incomoda, justamente por aquela “ansiedade da influência”, de que falou o crítico Harold Bloom.

Na época, eu não o percebia, mas aquelas influências eram armadilhas, e das mais perigosas. Não por culpa dos autores, claro; mas eu estava de tal forma deslumbrado com o texto deles, que não dedicava a devida atenção ao meu próprio. E o resultado foi que eu mais emulei do que enunciei, de fato.

E tem a questão da pesquisa: o livro foi resultado da minha monografia em uma especialização em história da arte. Hoje, após um mestrado e a caminho de um doutorado, percebo que faltou aprofundar muita coisa.

Em suma, vejo o livro como uma etapa necessária de um processo de amadurecimento. Ou seja, ele continua aqui na estante, mas duvido que eu vá abri-lo nos próximos decênios.

Ah, quanto às influências, essa é mais fácil. São muitas, mas fiquemos na santíssima trindade já mencionada: em nome do Poe, do Phillips (Lovecraft) e do Clive Barker, amém.  

EL: Você pode falar um pouco sobre seus outros trabalhos? Os já publicados ou não.

Horror Adentro (2013)

Oscar Nestarez: Claro. Na verdade, considero-me muito sortudo até agora, porque publiquei boa parte da minha ficção. Quanto às narrativas curtas, são duas coletâneas: “Sexorcista e outros relatos insólitos” (2013), pela editora Livrus e “Horror adentro” (2016), pela Kazuá. E como também tenho o hábito de me inscrever em concursos literários, acabei sendo contemplado em alguns. Nesse sentido, contos que não foram para as antologias acima saíram nas coletâneas desses prêmios, em vários lugares do país.

Quanto às narrativas mais longas: recentemente acabei de concluir meu primeiro romance de horror, que sai neste ano. Tenho também três histórias infantis na gaveta, à espera de um destino.

EL: Como você definiria o mercado literário de horror no Brasil?

Oscar Nestarez: 
Em termos editoriais, engatinhando, eu diria. Claro que os medalhões de fora têm um espaço enorme nas prateleiras das livrarias, mas as editoras começam a olhar com mais carinho para os nacionais. E o cenário me parece promissor justamente por isto. A meu ver, temos uma produção literária de horror de qualidade, e observo um interesse cada vez maior em se dar vida a isso.

Alguns autores recentes, como Raphael Montes (que escreve literatura policial, mas que trabalha elementos de horror), começam a quebrar certos paradigmas que ainda persistiam dentro dessas grandes editoras – o que era incompreensível, dado o tamanho do mercado de interesse. Tem muita, muita gente que ama ficção literária de horror, e se trata de um público fiel, que investe – desde que o produto valha a pena, claro. Algumas editoras, como a DarkSide, a Aleph, a Empíreo e a própria Companhia Das Letras, entenderam isso, e têm investido em projetos bem acabados de autores nacionais (além dos já consagrados estrangeiros, claro).

EL: Você falaria para gente como é o processo criativo de Oscar Nestarez?

Oscar Nestarez: Não há muito processo sobre o qual falar, na verdade. Em termos de planejamento, sou péssimo. Jamais seria capaz de colocar em prática aqueles diagramas complicadíssimos que são ensinados em oficinas de escrita criativa.

A sorte é que consigo ir formulando histórias mentalmente, durante todo o dia. Então, 95% do trabalho acontece indoors, dentro da cachola. Inclusive as formulações linguísticas. É por isso que, quando me sento para escrever, o que acontece é praticamente um descarrego mente-máquina. E falo muito sozinho, sussurrando, enquanto escrevo, o que deve ser bem estranho para quem estiver por perto. É quase um solfejo.

EL: Sobre o mercado editorial, você acha que o e-book vai algum dia suplantar o livro de papel?

Oscar Nestarez: Não acho, e estou cada vez mais convencido disso. Por mais que cresça a fatia de mercado do livro digital, sempre haverá o fetiche sensorial pelo livro impresso. E isso não se substitui.

EL: Algumas pessoas que hoje querem viver da ficção querem seguir aquele ideal romântico do autor que larga tudo e apenas escreve, as vezes viajando pelo mundo, as vezes sem se graduar numa boa universidade. Funcionou para alguns, mas nem sempre funciona para todos. Hoje em dia o número de escritores formados em boas universidades (seja em áreas afins ou não) está cada vez maior, e muitos sugerem que isso os tenha ajudado bastante na hora de escrever, seja por terem adquiridos referências, seja por técnicas e métodos ensinados, ou até mesmo pelo network que a universidade os proporciona. O que eu queria saber é: O que Oscar Nestarez acha disso e o que você credita de ganho na sua formação acadêmica no que tange ao seu trabalho atual como escritor?

Oscar Nestarez: Ótima pergunta. Na verdade, acho que a questão é até anterior à formação ou não de um escritor por uma boa universidade; porque, hoje, pelo menos no Brasil, são pouquíssimos os escritores que, venham de onde vierem, conseguem viver somente da escrita. O sonho romântico a que você se refere, a meu ver, está bem enterrado – a não ser que o sonhador tope uma vida de renúncias.

Porque, hoje, a literatura também compõe a tal sociedade do espetáculo. E, para se viver somente dela, pelo que tenho visto, é quase que mandatório que se aceite e participe disso. O autor precisa ser midiático. Não pode mais se isolar na torre de marfim. Tem que encarar as festas literárias, ministrar cursos, escrever artigos, ser ativo nas redes… enfim, tem que se construir. Não sou eu quem afirma isso – são os editores, ou seja, quem tem a palavra final em vários aspectos. E é claro que tudo isso diz respeito às escolhas do autor. É apenas uma constatação de como as coisas andam.

Sei que deslizei para fora da sua pergunta, mas foi só pra afirmar que acho que a formação de um autor se dá pelas duas vias: teórica (acadêmica) e empírica. Não é preciso ser um beat; mas viver, vivenciar, é fundamental. O trabalho intelectual, geralmente aprimorado nas instituições de ensino, pode moldar essa vivência, até para que se conheça as referências de modo a se alimentar – ou fugir – delas.

E aí, quando for necessário constituir aquela persona, ela será mais verdadeira, mais legítima.

EL: A fantasia nacional viveu há alguns anos, e ainda vive um pouco disso, um boom de escritores de fantasia. Muitos nomes ascenderam e se mantiveram no topo, e muitos outros surgem em todos os lugares do Brasil. Alguns arriscam que o brasileiro está se fechando num único nicho literário, e que isso pode ser um tanto quanto ruim. O que eu quero saber é: Qual a sua visão do mercado nacional de hoje e o que você acha desse interesse dos brasileiros pela literatura fantástica?

Oscar Nestarez: Acho extraordinário. Somos um povo absurdamente imaginativo, com uma enorme “tradição de imaginário sobrenatural”. Faltava uma apropriação em larga escala dessa tradição por parte dos ficcionistas do imaginário – o que, fico feliz por notar, vem acontecendo com cada vez mais frequência. Principalmente no Norte e no Nordeste, com ótimos novos autores trabalhando na seara do horror, principalmente.

E não acho que estejamos nos fechando em apenas um nicho. Nossa tradição literária sempre foi muito vinculada ao realismo machadiano, e muitas vezes à ficção regional, ou engajada, de denúncia social.

Assim, o que percebo é que há espaços sendo abertos para o texto desvinculado de ideologias, para o puramente imaginativo. Claro que sempre se poderá constatar um subtexto político, ou algo que racionalize o encantamento de uma boa história fantástica. Mas, pelas conversas que venho tendo com autores por aí, não é a intenção. E eu brindo a isso.

EL: Se você pudesse dar uma dica agora para os novos escritores, aqueles que querem ser lidos, querem ser publicados, e ainda estão dando seus primeiros passos como você e muitos outros deram um dia, que dica seria?

Oscar Nestarez: Claro, até porque me considero ao lado deles. Ainda estou dando os primeiros passos!

Mas minha primeira dica é: escrever, escrever e escrever. Manter uma rotina de produção é indispensável; todos os dias, preferivelmente.

Depois: mostrar, mostrar e mostrar (para leitores isentos e criteriosos, nos quais se confie, e que realmente dirão a verdade).

A seguir, alguns caminhos são possíveis: enviar originais a (muitas) editoras (e sentar e esperar); publicar via plataformas online, como Wattpad, Medium ou Amazon; ou inscrever em concursos literários.

Essa terceira via me auxiliou muito. A antologia “Horror adentro” foi publicada pela editora Kazuá após a realização de um prêmio nacional, por exemplo.

EL: O que podemos esperar de Oscar Nestarez para o futuro?

Oscar Nestarez: Para este ano, um romance de horror e um novo estudo sobre ficção de horror, com base em cursos e oficinas que venho ministrado.

E participação em muitos eventos. Aproveito para convidar a todos para a palestra “Ficção de horror: dos livros aos games”, que ministrarei na Campus Party ao lado do especialista em jogos Vince Vader e do André Vianco.

 

Mais uma vez preciso agradecer Oscar, dessa vez em nome de toda a equipe da Encontros Literários, pela paciência e gentileza em nos conceder essa maravilhosa entrevista. Não só por isso, mas por todo o tato em tratar com o condutor desta resenha via Facebook, sempre com delicadeza e educação. Posso afirmar que todos da equipe estão ansiosos por mais novidades suas na literatura!

Oscar Nestarez

PERGUNTINHAS EXTRAS

1.    Qual seu livro de cabeceira? São três: acabei de começar a leitura de Dark entries, seleção de contos de horror do inglês Robert Aickman (incensado por ninguém menos do que Neil Gaiman como um dos melhores do gênero – ainda não posso formular uma opinião); Enamoramentos, de Javier Marías (também no começo); e The Scarlet Gospels, de Clive Barker (recém-iniciado, também).

2.    Para quem quiser saber mais do seu trabalho, por onde podem começar a procurar você? Pelo Facebook https://www.facebook.com/oscar.nestarez.7 ou pelo e-mail: oscar.nestarez@gmail.com

Em ambos, estou à disposição.



Graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Fã de Stephen King e Oscar Wilde, mantenho ainda vivo o sonho de escrever profissionalmente; Amante de cinema, séries, quadrinhos e músicas. Descobri na arte uma forma de suportar a vida.