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SOBRE PROCESSOS CRIATIVOS COM O ESCRITOR FÁBIO MOURAJH

“Somos únicos, e por isso, especiais”. Como membros de uma mesma espécie, temos comportamentos semelhantes, mas nunca – nunca – iguais. Se não se diferenciam em qualidade, diferenciam-se em quantidade. Podem variar em topografia, intensidade, ou indo mais além até mesmo na localização espaço-tempo (ainda que um comportamento consiga “milagrosamente” ser idêntico a outro, ele nunca será emitido na mesma hora e local, portanto ainda é diferente). Mesmo o respirar, um comportamento tão básico e simples, é diferente para cada indivíduo. Como diria o Dr. Manhattan, em Watchmen (1986): “O humano mais inteligente do mundo não significa mais para mim do que o cupim mais inteligente”. Além de essa frase dizer muito por si só; e ignorando o contexto em que foi dita – onde serviu como recurso para mostrar o quão grandioso era o Dr. Manhattan em relação a qualquer ser vivente já conhecido – podemos também interpretar, pela ótica da nossa análise já feita até aqui, o seguinte: que até cupins são diferentes uns dos outros. Se até cupins podem ser diferentes uns dos outros, termos essa mesma característica não é o que nos torna especiais – se é que de fato somos especiais. Cada ser humano é singular sim, mas todos os animais não-humanos também o são. E isso é a Ciência quem diz, e não eu.

Se somos mesmo todos diferentes em comportamento, então nenhum comportamento pode ser considerado genuinamente especial? O que torna alguém ou um trabalho especial? Se todo comportamento é singular, então o comportamento de escrever, de tocar uma música, ou mesmo de assobiar uma melodia (comportamento criativo em geral) sempre vai ser único em todo o mundo, seja ele qual for? Se toda obra de arte cai na “categoria da singularidade”, como afirmam as Ciências do Comportamento, o que torna algumas geniais, já que todas as outras supostamente também possuem a qualidade – da singularidade – que a classificaria como “especial”? A resposta vem de Neil Gaiman (Autor de Sandman e Coraline), – por que afinal de contas, se você parar para pensar, essa característica intrínseca a tudo e a todos, é antes uma graça que um demérito –quando diz: “Mas uma coisa que você tem, que ninguém mais tem é você, sua voz, sua mente, sua história, sua visão. Então escreva e desenhe e construa e toque e dance e viva como só você pode. E no momento que você sentir que possivelmente você esteja andando na rua nu, expondo demais do seu coração e da sua mente e do que existe dentro, mostrando demais de você mesmo, esse é o momento que você pode estar começando a fazer certo.” (Discurso feito por ele na University of Arts – Philadelphia)

Valendo-se disso, cada fotógrafo, dançarino, poeta, músico ou escritor tem o seu próprio processo criativo. É por isso que há “processos criativos” e não “processo criativo”. F. Scott Fitzgerald (1896-1940), por exemplo, acreditava que o álcool era quase como matéria-prima para levar-lhe à inspiração. O japonês Haruki Murakami (Kioto, 1949) é o seu completo oposto. Para começo de conversa, o sujeito é quase um “maratonista da literatura”. Enquanto Fitzgerald ou Arthur Miller (1915-2005), por exemplo, não tinham horários ou regras para quando e como escrever, Murakami segue uma rotina quase religiosa: Seu método consiste em acordar cedo o suficiente para estar às 4 horas da manhã já escrevendo um livro. Trabalha cerca de 5 a 6 horas por dia, e ainda tem tempo para o lazer. Nada ao estilo boêmio de Fitzgerald, dos anos 20. O lazer de Murakami é correr, ler, e escutar uma boa música. Mark Twain (1835-1910) não conseguia escrever sem um charuto ao lado. Stephen King (Maine, 1947) acredita que se você quiser de fato escrever deve primeiro livrar-se de sua TV (eu mesmo posso dizer que fiz isso há mais de um ano e não me arrependo). Ela é perniciosa e vai podar sua criatividade. Balzac? Não teria escrito o clássico A Comédia Humana sem uma xícara forte de café ao lado. Mas não posso julgá-lo. Quem em sã consciência negaria uma boa xícara de café?

Há escritores que acreditam que escrever é reescrever. Ernest Hemingway (1899-1961) escrevia a primeira versão a lápis, reescrevia a caneta e depois passava para a máquina. Isso lhe dava três chances de rever seu trabalho e melhorá-lo reescrevendo. Já no reino do fantástico, J. R. R. Tolkien (1892-1973) era fortemente inspirado por seus sonhos, e acreditava que a poesia era um caminho para a prosa. Stephen King (Maine, 1947) indica a todos os que desejam iniciar na literatura a não se apegar tanto à gramática, por exemplo. Afinal de contas “A linguagem nem sempre precisa usar gravata e sapatos de laço. O objeto da ficção não é a certeza gramatical, mas sim fazer o leitor se sentir bem-vindo e o contar uma história”. Gabriel García Márquez (1927-2014) acreditava que estar bem alimentado e com a melhor máquina elétrica se escreve muito melhor. Horácio Quiroga (1879-1937) acreditava piamente que as três primeiras palavras de uma história tinham quase a mesma importância que as três últimas. Já Eric Novello (Rio de Janeiro, 1978), escritor brasileiro de literatura fantástica e realista, baseia seu processo criativo no que nomeou de “construção e desconstrução”: “Uma das estruturas básicas de uma história é a sua divisão em três atos. Existem variações, mas essa é a mais comum. Por vir da escola de cinema, tenho o hábito de escrever a escaleta da história, que é um pequeno resumo das cenas e o objetivo de cada uma delas, antes de partir para a escrita propriamente dita. Com a “construção e desconstrução”, eu construo o primeiro ato na escaleta e desenvolvo isso no papel, criando o texto em si, algo mais próximo do livro final. Só a partir daí trabalho na escaleta do segundo ato. Se alguma ideia mais interessante surgir no processo, vejo o que precisa ser desconstruído do primeiro ato para gerar a coesão com o segundo. Adiar o primeiro encontro de dois personagens? Incluir ou tirar uma trama? Mudar o background de alguém? Esse tipo de coisa. Com os dois atos escritos, parto para o terceiro seguindo o mesmo pensamento.” (dito pelo mesmo em uma entrevista cedida à Encontros Literários → clique aqui). H.P. Lovecraft (1890-1937) também fazia algo semelhante à um esqueleto básico onde visualizava todas as cenas da história antes de começar a pôr de fato mãos à obra.

Não só de flores vivem os artistas. Não só de inspiração por sonhos, pela música, ou só por vaguear por aí olhando as pessoas e estudando-as, como fazia Da Vinci. Há muita dor e labuta nesse mercado… Tolkien foi pressionado por seu editor para terminar logo seu clássico O Senhor dos Anéis, assim como George R. R. Martin (Bayonne, 1948) é pressionado hoje em dia. O russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) também foi um que sofreu bastante com isso em seu tempo. Em 1865 começou a trabalhar no épico Crime e Castigo, entretanto seu editor determinou um prazo curtíssimo para que este entregasse o livro… Se você já viu o tamanho de Crime e Castigo ficará impressionado com essa informação.

E foi pensando nisso, tanto nos contratempos, como nas diversas formas de processos criativos que diferentes pessoas podem conceber, que a Equipe da Encontros Literários contatou o escritor Fábio Mourajh para falar sobre como se dá o processo criativo a partir de sua perspectiva.

 

Encontros Literários (EL): Fábio, antes de mais nada, me fale um pouco sobre você. O que faz, o que sonha, o que gosta. Nos dê umas pistas da pessoa por trás de suas histórias.

Fábio Mourajh: Me chamo Lúcio Fábio Silva Mourájh. Nasci no dia 27 de junho de 1986, o último dia que foi possível ver o cometa Halley em sua passagem próxima à Terra. O que me fascinou desde então. Sou um apaixonado por sistemas e padrões por sofrer de uma síndrome chamada de Síndrome de Asperger que nada mais é que um nível baixo de autismo que me permite me comunicar normalmente, mas me causa algumas limitações no que se refere à questões de socialização. Até por isso quando ingressei na faculdade decidi entrar num curso de comunicação para poder me desenvolver melhor nessa questão. Sou formado em Publicidade e Propaganda. Acho que as minhas expectativas com a vida tem principalmente a ver com viver e presenciar grandes momentos que ficaram ou ficarão marcados na história da humanidade.

Encontros Literários (EL): Fábio, muito interessante isso que você falou sobre sofrer de Síndrome de Asperger e apesar disso – ou talvez por conta disso – ingressar na área da Comunicação. Muitas pessoas se esquivariam disso. Sei o quanto deve ser difícil, pois tenho disfemia, sabe… a famosa “gagueira”, e também sou apaixonado pela grande área da Comunicação. Estudo Psicologia, então sei por alto o que você passa ou já passou. Você acha que a percepção de mundo que você tem, que você mesmo definiu como “(…) me causa algumas limitações no que se refere à questões de socialização” pode ter tido influência direta em suas histórias? E quais grandes momentos da humanidade você poderia citar que presenciou ou que queria presenciar? Você não concorda com a afirmação do Tyler Durden, de Clube da Luta: “Somos uma geração sem peso na história”?

Fábio Mourajh: Me identifico muito com as pessoas que possuem algum tipo de característica social muito própria. Naturalmente me aproximei bastante ao longo da vida dos famosos “Estranhos”, seja na escola, ou nos convívios de trabalho, por exemplo. Essas pessoas, que considero “mundos particulares”, cada uma com suas singularidades, seus dilemas, muitas histórias não contadas, desconhecidas, sempre me fascinaram. Sempre fui curioso para saber o que a garota calada que sentava sozinha na sala de aula pensava sobre os outros alunos com os quais ela não interagia. Sempre fui de observar essas pessoas, e ao me aproximar de cada uma delas tive incríveis e riquíssimas experiências. E isso sim, influenciou minha escrita. Meu próprio livro que será lançado no meio do ano dialoga com essa premissa da nossa condição humana tão singular. Sobre os acontecimentos e fatos históricos, eu acredito que todo dia acontece algo de importante. Recentemente um consórcio internacional de cientistas comprovou a teoria das ondas gravitacionais de Albert Einstein. Eu vi a queda do muro de Berlim sentado no colo do meu tio, tinha 3 anos, e me lembro dele dizer: “Olhe bem pra isso, o mundo nunca mais vai ser o mesmo depois de hoje” Eu discordo que somos uma geração sem peso na história. Todo dia podemos mudar o mundo com nossas atitudes. Tudo é história. Nossa conversa agora é história. Enquanto vivemos podemos qualquer coisa, depois quando nos formos seremos história. Essa nossa conversa poderá ser lida daqui a décadas, séculos ou milênios, quem sabe.

Encontros Literários (EL): Muito interessante seu ponto de vista, Fábio. Também concordo com a ideia de que nossa geração pode mudar o mundo, se agir da maneira correta. Só perguntei para ser um pouquinho polêmico e saber sua opinião, Haha. Afinal, querendo ou não, vendo agora da óptica literária é uma frase e tanto. Vinda de um livro (Clube da Luta) e de um autor (Chuck Palahniuk) que particularmente adoro e acho que diz muito sobre a sociedade em que vivemos. Você acha importante levar para a literatura questões sociais e abordá-las acidamente e às vezes até indecentemente como faz o Chuck Palahniuk? Tem também o filme, que também é muito bom. O que você acha do estilo dele? E por falar em estilo, como você definiria o seu próprio?

Fábio Mourajh: A literatura é a premissa do ser humano. Sem ela somos iguais a todas as outras formas de vida. Não existe limite ou restrição para ela. Tudo é possível na literatura, até o impossível. Sou um grande fã do filme que assisti ainda criança, todos os aspectos psicológicos que estão colocados ali de maneira tão crua e verdadeira. Meu livro aborda as questões dos tidos como diferentes de maneira profunda na visão de um personagem que sofre de abusos e por conta disso adquire uma visão extremamente cruel da vida.

Encontros Literários (EL): Entendi. E como você chegou à sua forma de escrita de hoje? Pelo quê Fábio Mourajh teve de passar para se tornar o escritor que se tornou? O que você acredita que mais contribuiu para sua formação como escritor, e além… quais suas influências? (sejam elas literárias ou não).

Fábio Mourajh: Essa é uma parte muito rica da minha vida. Tenho o privilégio de ter pais que sempre me incentivaram a leitura. Aprendi a ler muito cedo. Com três anos já lia os livros das minhas irmãs mais velhas que estavam em séries acima. Muitas crianças queriam ganhar brinquedos quando criança. Eu queria Atlas, revistas e livros. Comecei me apaixonando pelos autores brasileiro como José de Alencar e Clarice Lispector. Desde então sempre escrevi, mas guardava o que produzia para mim mesmo. Em 2010 minha namorada acabou lendo uns rascunhos do que viria ser o meu primeiro livro. Adorou e me incentivou a continuar escrevendo. Eu tinha um trabalho em que entrava às 8:00 da manhã e saía às 23:00 da noite. Era frustrado e me sentia um lixo. Essa sensação me fez fugir de vez para esse mundo onde os personagens sentiam as mesmas angústias e privações de tantas pessoas que conheci ao longo dessa vida. Escrevia num caderninho nas viagens de volta para casa, dentro do ônibus, nas paradas dos ônibus e nos terminais. Fiquei obcecado pela escrita, estava possuído pela necessidade de escrever. Minha namorada virou fã da história e me pedia para escrever um capítulo novo sempre que terminava os que eu escrevia pra ela. Quando percebi tinha 900 páginas escritas. Foi uma loucura só. Sou sonâmbulo, então cheguei a escrever dentro do ônibus dormindo. E até hoje leio coisas que para mim não fui eu que escrevi. Minhas influências são muito diversas. Desde as historias que a minha família me contava, todos da minha família são ótimos contistas de causos. Quando criança sentava para ouvir meus tios e bisavós contarem histórias de lobisomens, mulher de branco e muitas outras. Na escrita acredito que a ficção histórica é o que me fascina mais, e por isso tenho grande admiração por autores como Bernard Cornwell, Ken Follett e o recém-falecido Umberto Eco, que inclusive tem influência direta no meu livro, pois faço muitas homenagens ao seu livro O Nome da Rosa, que eu adoro.

Encontros Literários (EL): Então fala pra gente Fábio como é seu processo de escrita e do que se trata sua obra? Agora fiquei curioso sobre o que se trata. O livro já tem nome?

Fábio Mourajh: Sim, sim. O Livro tem nome: O Livro se chama Decrépitos – Aqueles que Herdaram a Terra. Ele será publicado pela editora Chiado, de Portugal, e terá lançamento mundial. Tanto no Brasil quanto na Europa e EUA. O livro é o primeiro de uma trilogia que nos apresenta um Planeta Terra devastado por uma praga que matou tudo que era vivo, e os poucos humanos que conseguiram sobreviver se protegeram dessa praga em cúpulas onde desenvolveram um tipo de ser humano híbrido capaz de sobreviver a essa bactéria que mata rapidamente quem entra em contato com ela. Loan, o personagem principal da trama é um hibrido chamado de criado. Um clone fabricado em grande escala para servir aos poucos humanos que existem na terra. Os criados não são considerados seres humanos, logo não estão protegidos por leis. Portanto são meras mercadorias que ao perder sua utilidade são jogadas nas ruas vivendo como mendigos até serem exterminadas pela polícia numa ação chamada de A Limpeza. Esses clones em geral não possuem uma personalidade própria nem conseguem distinguir qualquer coisa que não seja a ordem de seus senhores. Por isso não reagem ao extermínio, porém Loan é diferente. Tem emoções complexas e se considera tão humano quanto qualquer outro Homo Sapiens. Porém esses mesmos clones que são considerados como mercadoria na cidade que Loan vive, em outra cidade são considerados deuses. E a experiência de Loan em descobrir essas duas culturas tão diferentes e que o tratam numa como um ser divino e em outra como um produto acarretará grandes traumas para todos.

Meu processo de escrita acontece em camadas. Primeiro escrevo qualquer coisa, não importa o que seja. Depois contextualizo com a minha história. Tenho milhares páginas que nunca publicarei, mas que servem de background para a história. Posso escrever por exemplo sobre o que penso da política no Brasil e depois contextualizo para o mundo que eu criei. Posso escrever sobre a saudade que tenho de minha tia falecida e depois usar esses sentimentos para descrever a falta que um personagem faz a outro que se recorda. Depois vem o processo de pesquisa. Procuro me aprofundar sobre os aspectos que regem o mundo no qual insiro meus personagens. Por exemplo: Para descrever um capítulo em que descrevo as ruínas do que um dia foi o Vaticano eu passei seis meses estudando sobre a cidade-estado. Tamanho, densidade demográfica. Em geral também preciso me desligar do mundo por alguns dias para poder escrever algo que considero de qualidade. Invejo aqueles que sentam em frente a um computador ou uma máquina de escrever e conseguem produzir sem parar. Pra mim há uma necessidade de conexão com o que escrevo e o que sinto ao escrever. Fico pensando no George R.R. Martin tendo que escrever sem parar para cumprir os prazos do livro, isso deve ser o inferno. Escrever é um aprimoramento, muitas vezes se necessita escrever várias e várias vezes o mesmo capítulo para se chegar a um resultado satisfatório. Meu livro mesmo demorou 5 anos para ser escrito e se eu for lê-lo ainda iria mudar muitas coisas.

 

Agradecimentos da Equipe da Encontros Literários: Fábio, muito obrigado por participar desse bate-papo e por nos falar como é o dia a dia de um escritor e o que se passa em sua cabeça. Estou realmente ansioso por mais novidades suas no mundo
da literatura. Acredito que ainda vamos ouvir falar muito de você!

PERGUNTINHAS EXTRAS

1. Qual seu livro de cabeceira? Meu livro de cabeceira é Le Rouge et le Noir (vermelho e o negro) do escritor francês

Stendhal.
2. Para quem quiser saber mais do seu trabalho, por onde podem começar a procurar você? Você pode saber
mais sobre os meus gostos literários no meu canal do YouTube onde faço resenhas sobre livros de ficção e fantasia. Só escrever Fabio Mourajh no youtube. Meu twitter é @Fabio_Mourajh e site oficial do meu livro em www.decrepitos.com.br



Graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Fã de Stephen King e Oscar Wilde, mantenho ainda vivo o sonho de escrever profissionalmente; Amante de cinema, séries, quadrinhos e músicas. Descobri na arte uma forma de suportar a vida.