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Dissecando os canalhas da ficção

Personagens cinzentos. Você sabe, canalhas, patifes, mentirosos, charlatães… Não são necessariamente vilões, apesar de muitos poderem ser, ou ter potencial para tal. Os canalhas, ou melhor, dizendo, os personagens cinzentos, são aqueles tipos imprevisíveis e às vezes inescrupulosos. Agem de acordo com seus próprios interesses, e não fazem esforço nenhum para serem benquistos, mas muitos deles ganham nossos corações. Às vezes só estão de passagem e para salvar a própria pele ou resolver seus próprios problemas, acabam se unindo aos mocinhos e dando uma de herói, ajudando uma nação, como Max Rockatansky de Mad Max ou Jonah Hex, personagem de quadrinhos do gênero Western, cuja inspiração deve muito ao Pistoleiro Sem Nome; outro anti-herói clássico, — esse do cinema —, e interpretado por Clint Eastwood nos anos 70.

Todo gênero literário ou cinematográfico há sua cota de canalhas. Na literatura então, estamos bem servidos desses personagens tão sedutores. E foi do próprio George R. R. Martin que tomei emprestado o termo “personagem cinzento”. Sempre que possível, o autor de As Crônicas de Gelo e Fogo faz questão de frisar que prefere os personagens que beiram a vilania e o heroísmo, sem necessariamente escolher um extremo ou outro. Nas palavras do próprio:

Cinza tem sido minha cor favorito há tempos. É muito mais interessante que o preto ou o branco.

George R. R. Martin

E isso é uma tendência entre os artistas. Vide Lee Bermejo em sua graphic novel Noel, onde ele dá ao próprio Batman um ar meio acinzentado. Não que o Morcego não já fosse um canalha e tanto, pois se ele fosse daquele outro tipo de herói puro e casto, honesto e cumpridor da lei, ele seria um policial e não um vigilante mascarado. E dentro desse segmento que são as comics, podemos arriscar que quase todos os heróis mascarados são em tese uns bons canalhas. Veja por exemplo o Demolidor. De dia é um advogado respeitado e durante a noite faz o que tem de fazer, caso contrário, a própria lei nunca o faria. E por que não ousar mais e estender isso ao próprio Rei do Crime? Cujo objetivo é transformar a cidade que ele ama, num lugar melhor, mesmo que tenha que fazer isso com métodos deveras controversos? São personagens assim, entre o herói e o vilão, que nos atraem. Personagens cujas ações podem ser más, mas cuja motivação pode até ser muito digna. Chega daquele maniqueísmo barato, chega de personagens brancos e personagens pretos. O que nós queremos são personagens cinzas, criaturas mais perto da realidade e menos fictícias; ainda que na ficção.

E já que falamos ali de policiais, porque não falar do seu oposto fora da lei, os detetives particulares, ou consultores particulares, como alguns gostam de chamar a si mesmos? Aqueles que arriscam seu pescoço para solucionar casos aparentemente impossíveis? Como Sherlock Holmes ou Hercule Poirot. Ou por que não falar de Nick Belane, do romance Pulp de Charles Bukowski? Sem falar no próprio Henry Chinaski, seu alter-ego, um canalha puro, e que protagoniza muitos de seus livros, como Mulheres ou Cartas na Rua. E seria ousado demais da minha parte afirmar que o próprio Bukowski era um canalha? Um poeta bêbado ou bêbado poeta?

Na nossa própria História temos nossa cota de canalhas, bem como na mitologia. Ou Loki, ou mesmo Zeus, não são lá canalhas a sua própria maneira?

Eu poderia passar o dia falando dos canalhas que tanto nos conquistam nas mais variadas mídias ficcionais. Temos canalhas no cinema, na literatura, nos quadrinhos, nos jogos de plataforma e até em jogos de RPG. O que eles têm em comum? Eles são imprevisíveis. Por mais que possa parecer um arquétipo ter esse jeitão desinteressado e atraente, sedutor, mas perigoso, você nunca sabe de verdade o que se passa na cabeça de um sujeito desses. Você nunca sabe o que virá a seguir. E não fique pensando que só os caras maus são os canalhas da ficção. Há muitas garotas que também podem ser canalhas. Vide Mia Wallace, em Pulp Fiction ou todas aquelas belas samurais em Kill Bill.

E se eu consegui te deixar interessado em conhecer mais alguns desses patifes, vou deixar aqui uma lista de cinco obras para você se deliciar com esses personagens tão sedutores:

  1. Hellblazer — Hábitos Perigoso
    Vou abrir com um dos personagens mais bad ass dos quadrinhos, de um autor que é considerado por mim um dos maiores criadores de canalhas de todos os tempos. O homem que revolucionou os quadrinhos de super-heróis com Miraclemen e Watchmen, Alan Moore. Mas veja bem: apesar da graphic novel em si não ser roteirizada por ele, o personagem dela, John Constantine, saiu da sua mente insana. Hellblazer — Hábitos Perigosos é considerado um clássico de John Constantine. Roteirizada por um cara que eu particularmente gosto muito, Garth Ennis. Nessa graphic novel ele nos faz entender perfeitamente o porquê de Constantine fazer tantos inimigos.
  2. Watchmen
    Agora sim uma história pensada e roteirizada pelo próprio mago Alan Moore. Ainda que muitos dos personagens não sejam originalmente dele, o mago os reformulou e os usou de tal maneira que não há quem diga que eles não sejam criações dele. A faceta que ele deu para eles é a que só Alan Moore conseguiria. Para quem já assistiu a magnífica obra adaptada de Zack Snyder ou já leu as páginas escritas por Alan Moore e desenhadas por Dave Gibbons, vai entender do que eu estou falando. Se ainda não leu ou ainda não assistiu Watchmen, essa é uma boa hora. Quando você entender a profundidade de cada uma das personagens, em particular Rorschach e Comediante, você entenderá por que essa leitura está nessa lista de personagens cinzas e canalhas.
  3. Planeta Terror
    Um filme roteirizado e dirigido por Robert Rodriguez e produzido por ninguém menos que Quentin Tarantino, em parceria com Elizabeth Avellan e o próprio Robert Rodriguez. De 2007, Planeta Terror foi lançado para os cinemas norte-americanos numa sessão dupla, juntamente com outro filme de mesmo tom, dirigido por Tarantino, o Death Proof, ambos sob o título de Grindhouse. O filme em si, é uma homenagem aos filmes de horror da década de 70, em forma de paródia. Muitos personagens aqui podem ser considerados canalhas, mas para mim El Wray que ganha o troféu.
  4. Bastardos Inglórios
    É difícil homenagear só um filme de Quentin Tarantino. Assim como Alan Moore, esse é um mestre em criar canalhas. Mas acabo indicando Bastardos Inglórios, porque o Coronel Hans Landa, assim como muitos outros personagens dessa obra, são a face perfeita de um canalha dos bons. Bastardos Inglórios é um filme de 2009, estrelado por Brad Pitt, Christoph Waltz, Mélanie Laurent e Diane Kruger.
  5. O Príncipe de Westeros e Outras Histórias
    Por último, mas não menos importante, temos um livro maravilhoso, exclusivamente sobre canalhas, e que inclusive serviu de inspiração para essa matéria. Por isso o escolhi agora; para fechar com chave de ouro. O Príncipe de Westeros e Outras Histórias foi organizado por George R. R. Martin e Gardner Dozois e lançado aqui no Brasil pela editora Saída de Emergência. Conta com histórias dos mais poderosos nomes da literatura especulativa contemporânea, como Neil Gaiman, Gillian Flynn, Patrick Rothfuss, Scott Lynch, e além, claro, do próprio George R. R. Martin. Resenha >Aqui<.


Graduando em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Fã de Stephen King e Oscar Wilde, mantenho ainda vivo o sonho de escrever profissionalmente; Amante de cinema, séries, quadrinhos e músicas. Descobri na arte uma forma de suportar a vida.