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Existe um Deus artificial?

Douglas Noël Adams, célebre criador do Guia do Mochileiro das Galáxias, roteirista de Doctor Who e criador de várias esquetes para a série Monty Python’s Flying Circus, também era declaradamente um ateísta radical, ativista ambiental e amante de automóveis e tecnologia (e de computadores da Macintosh). Este homem, que nos mostrou a resposta para a Pergunta Fundamental sobre a vida, o Universo e Tudo Mais, era 42 vezes crítico com os conceitos que nossa sociedade ainda tem, e muitas destas opiniões aparecem em forma de deboche no Guia do Mochileiro das Galáxias. Sua vida também foi repleta de peripécias para chamar a atenção às causas que ele defendia, como a vez que Adams escalou uma montanha vestido de rinoceronte, para promover o projeto Save the Rhino (que tinha Adams como um dos patronos e fundadores), que visa arrecadar fundos para salvar os rinocerontes.

“Douglas Adams inspirou mudanças positivas e apoiou diversas causas significativas. Sua paixão por animais selvagens nunca esteve mais presente do que quando viajou ao redor do mundo com o zoólogo Mark Cawardine para documentar as espécies em risco de extinção para seu maravilhoso livro Last Chance to See (Última Oportunidade Para Ver). E não parou nisso, pois ele seguiu em frente, transformando-se no energético e carismático patrono, tanto do Diana Fossey Gorilla Fund quanto do Save the Rhino International. Entre suas muitas ações para apoiar este último, houve a famosa vez em que escalou o Kilimanjaro, fantasiado de rinoceronte, para ajudar a divulgar sua causa.” Bradley Trevor Greive (Autor de “Um Dia ‘Daqueles'”)

Em setembro de 1998, durante a Conferência Anual de Ciberbiologia Digital Biota 2, Douglas Adams acabou dando uma palestra improvisada, que foi nomeada como Is There An Artificial God? (Existe um Deus Artificial?). Neste debate, Adams fala de coisas como a figura de Deus na sociedade, do impacto deste na sociedade humana, da dificuldade de definir o que é ou não é vida, de religião, de avanços tecnológicos e científicos e do que ele chamava de “As quatro Idades da Areia”. Abaixo colocarei a transcrição deste debate, que se encontra no livro O Salmão da Dúvida, lançado no Brasil pela Editora Arqueiro (e que já foi resenhada pela Encontros Literários AQUI).

Transcrição:

Isto foi originalmente anunciado como um debate porque eu estava um pouco ansioso diante da ideia de vir até aqui. Achei que não teria tempo para preparar nada e, além disso, sendo um evento tão cheio de figuras ilustres, pensei: “O que eu, como mero leigo, poderia ter a dizer?”. Então me pareceu melhor que fosse um debate. Mas, depois de passar dois dias aqui, percebi que vocês são só um bando de caras como eu! Isto aqui tem fervilhado de ideias, e eu mesmo tive tantas enquanto conversava com as pessoas e ouvia o que elas tinham a dizer que acabei preferindo simplesmente subir aqui e ter uma conversa e um debate comigo mesmo. Vou falar durante um tempo e espero que seja suficiente para provocar e incitar opiniões de tal forma que cadeiras estejam sendo jogadas pelos ares no final.

Antes de entrar no assunto que pretendo explorar, deixem-me avisar logo que as coisas talvez fiquem um pouco confusas de vez em quando, porque acrescentei muita coisa em cima da hora, então, se por acaso eu começar a. . . eu estava contando a alguém mais cedo que tenho uma filha de 4 anos e que foi muito interessante observar seu rosto durante suas primeiras duas ou três semanas de vida e perceber de repente algo que ninguém poderia ter percebido em outra época: ela estava reinicializando.

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Douglas Adams vestido de rinoceronte, para a escalada a fim de angariar fundos para a fundação Save the Rhino. Imagem: Blog Obrigado pelos Peixes

E só quero mencionar uma coisa, que não tem nada a ver com nada, mas de que me orgulho bastante: eu nasci em Cambridge no ano de 1952 e minhas iniciais são DNA!

O tópico que gostaria de apresentar a vocês esta noite, tema do debate que estamos prestes a mais ou menos não ter, é ligeiramente jocoso (vocês ficarão surpresos ao ouvir qual é, mas vamos ver aonde isso vai dar): “Existe um Deus artificial?”. Estou certo de que muitos dos presentes tenham uma opinião semelhante sobre o assunto, mas, mesmo que você seja um ateu de carteirinha, é impossível ignorar que a figura de um deus teve um impacto extremamente profundo na história humana durante muitos, muitos séculos. É bem interessante tentar descobrir de onde saiu essa ideia e o que ela significa neste mundo científico moderno em que, às vezes contra todas as provas em contrário, julgamos viver.

Eu estava pensando no assunto hoje mais cedo quando no final da palestra “O que é a vida” Larry Yaeger mencionou algo que eu não sabia sobre uma área específica do reconhecimento de caligrafias. O seguinte pensamento estranho passou pela minha cabeça: tentar descobrir o que é ou não é vida e onde está a fronteira entre as duas coisas é curiosamente semelhante a reconhecer letras escritas. Quando nos vemos diante de algo, como um mofo dentro da geladeira, todos nós sabemos, por instinto, se é um organismo vivo ou não. Mas definir de forma exata o que é ou não é vida é extremamente difícil. Lembro-me de uma vez, não muito tempo atrás, em que precisei de uma definição de vida para uma palestra que iria fazer. Supondo que deveria haver uma definição simples, fui procurar na internet. Fiquei pasmo diante da variedade de definições que encontrei. Se você parar para pensar, qualquer coisa que inclua a mosca-doméstica, Richard Dawkins e a Grande Barreira de Corais é um conjunto de elementos bem complicados de se comparar. Quando ainda estamos tentando descobrir quais regras buscar, tentar encontrar uma regra que seja incontestavelmente verdadeira se torna muito, muito difícil.

Comparem isso ao processo de determinar se algo é um A, um B ou um C. É mais ou menos a mesma coisa, mas é também muito, muito diferente, porque você pode dizer a respeito de algo que “não tem muita certeza se conta como vida ou não, está meio entre uma coisa e outra, não acha? É provavelmente um exemplo bem inferior do que você chamaria de vida, ou talvez esteja só quase vivo, ou nem isso”. Ou então talvez diga sobre um exemplo de vida digital: “Isso conta como organismo vivo?”. É algo que vai fazer um “squish” se você pisar em cima? Pensem na controversa hipótese de Gaia; há quem pergunte: “O planeta é um ser vivo?” ou “A ecosfera está viva ou não?”. No fim das contas, depende de como você define esses termos.

Agora, comparemos isso ao reconhecimento de caligrafia. No fim das contas, o que você está tentando determinar é: “Isto é um A ou um B?”. As pessoas escrevem as letras A e B de várias formas diferentes, com floreios, garranchos e por aí vai. Não adianta dizer “Bem, parece um A, mas tem um pouco de B também”, porque você não pode escrever “arroz” com uma letra dessas. Ou é um A ou é um B. Como julgar isso? Quando tenta reconhecer uma caligrafia, você não está tentando determinar quanto uma letra se parece mais com A ou B, mas sim a intenção da pessoa que a escreveu. No fim das contas, tudo se esclarece: é um A ou um B? Ah, é um A, porque a pessoa quis escrever “arroz”, e é claramente isto que está no papel. Então, na falta de um criador intencional, não se pode dizer o que é a vida, simplesmente porque isso depende de que conjunto de definições você inclui em sua definição geral. Sem um deus, a vida é apenas uma questão de opinião.

Eu gostaria de retomar alguns dos assuntos que foram abordados hoje. Fiquei fascinado com Larry (outra vez) quando ele falou sobre tautologia, porque uma vez fui confrontado com um argumento que simplesmente não consegui rebater. Fiquei tão intrigado com o desafio que não fui capaz de encontrar uma solução para ele. Um cara disse para mim: “Sim, mas toda a teoria da evolução é baseada numa tautologia: o que sobrevive sobrevive.”. Esse é um argumento tautológico, redundante; portanto, não tem significado algum. Refleti um pouco sobre a questão e por fim me ocorreu que uma tautologia é algo que não significa nada; que não só não contém qualquer informação, como não gera consequência alguma. Mas talvez isso nos revele, sem querer, a resposta que tanto buscamos; esta é a única coisa, a única força, talvez a mais poderosa que conhecemos, que não precisa de nenhum outro aporte, que não precisa ser sustentada por nada; ela é autoexplicativa e, portanto, tautológica, mas ainda assim suas consequências são extraordinariamente poderosas. É tão difícil encontrar algo que se compare a isso que decidi colocá-lo na abertura de um dos meus livros. Eu reduzi a questão até o que me parece ser o básico do básico, chegando a algo bem parecido com as formulações que vocês apresentaram mais cedo, que é o seguinte: “Tudo o que acontece acontece. Tudo o que, ao acontecer, faz com que outra coisa aconteça, faz com que outra coisa aconteça. Tudo o que, ao acontecer, faz com que ela mesma aconteça de novo, acontece de novo.”. Na verdade, você nem precisaria das outras duas frases, porque elas vêm da primeira, que é autoexplicativa, não havendo necessidade de dizer mais nada; todo o resto parte dali. Então acredito que o que temos aqui é uma verdade fundamental e absoluta, impossível de contradizer. Ela foi identificada pelo mesmo cara que disse que isso é uma tautologia. Sim, é verdade, mas é uma tautologia especial, no sentido de que não contém nenhuma informação, mas gera uma quantidade infinita de informações como consequência. Portanto, acredito que ela possa ser a causa primária de tudo o que existe no universo. Essa é uma afirmação e tanto, mas sinto que estou falando para uma plateia bastante receptiva.

De onde vem a ideia de Deus? Bem, acho que nós temos uma perspectiva bastante distorcida sobre um monte de coisas, mas vamos tentar encontrar a origem dessa nossa perspectiva em especial. Imaginem o homem primitivo. Ele é uma criatura evoluída e vive em um mundo que o próprio homem já está começando a dominar um pouco; aprendeu a fazer ferramentas, a mudar o ambiente com as ferramentas que produz, e quando as produz é justamente com esse propósito de mudança em mente. Para dar um exemplo de como o homem se comporta em relação aos outros animais, pensemos na especiação, que tende a ocorrer quando pequenos grupos são separados do restante da manada por alguma mudança geológica, pressão populacional, escassez de alimentos ou qualquer outro motivo e se veem em um ambiente diferente do original. Um exemplo bem simples: um grupo de animais pode vir a se encontrar de repente em um local em que o clima é bem mais frio. Nós sabemos que, depois de algumas gerações, os genes que favorecem o surgimento de uma pelagem mais grossa virão à tona e os animais desenvolverão justamente esse tipo de pelagem. O homem primitivo, que é um produtor de ferramentas, não precisa fazer isso: ele pode viver em uma variedade extraordinariamente ampla de habitats na Terra, desde a tundra até o deserto — ele consegue viver até em Nova York, para vocês terem uma ideia — e o motivo é porque, ao chegar a um novo ambiente, ele não precisa esperar por várias gerações para se adaptar; quando chega a um clima mais frio e vê um animal que possui aqueles genes que favorecem uma pelagem mais grossa, ele diz: “Vou arrancar aquilo dele”. As ferramentas nos possibilitaram pensar de forma estratégica, fazer coisas e produzir coisas que tornam o mundo mais confortável para nós. Agora, imaginem um homem primitivo olhando à sua volta ao final de um dia de fabricação de ferramentas. Ele corre os olhos ao seu redor e o que vê é um mundo que o agrada imensamente: atrás dele, há montanhas com cavernas — montanhas são ótimas porque você pode se esconder nas cavernas, que o protegem da chuva e dos ursos. À sua frente, estende-se uma floresta — florestas são ótimas porque têm nozes, amoras e outras comidas deliciosas. Um córrego passa por ali, e por causa dele você tem abundância de água — a água é gostosa de beber, você pode colocar suas embarcações para flutuar nela e usá-la para um monte de outras coisas. E lá está o seu primo Ug, que acabou de apanhar um mamute — mamutes são excelentes, pois você pode comê-los, vestir a pelagem deles e usar seus ossos a fim de criar armas para caçar outros mamutes. Ora, este é um mundo maravilhoso. Mas o nosso homem primitivo reflete por um instante e se faz uma pergunta muito traiçoeira, que é totalmente sem sentido e falaciosa, mas que só lhe vem à mente porque essa é a sua natureza, essa é a natureza do tipo de pessoa que ele é e do tipo de pessoa que sobreviveu justamente por pensar dessa maneira. O homem, um criador, olha para o seu mundo e diz: “Mas, então, quem criou isso?”. Quem criou isso? — vocês já devem ter percebido por que essa pergunta é tão traiçoeira. O homem primitivo pensa: “Ora, como só conheço um tipo de criatura que cria coisas, quem quer que tenha criado tudo isto deve ser como eu, só que bem maior, muito mais poderoso e necessariamente invisível; e como normalmente eu sou o mais forte e faço tudo, ele deve ser macho”. E eis que surge a ideia de um Deus. Então, uma vez que criamos as coisas com a intenção de fazer algo com elas, o homem primitivo se pergunta ainda: “Pra quê ele criou tudo isso?”. E é aí que o homem primitivo cai na verdadeira armadilha, pois ele está pensando: “Estou muito bem-acomodado neste mundo. Tenho este monte de coisas que me ajudam, me alimentam e me protegem; é, eu me encaixo muito bem aqui” e chega à conclusão inevitável de que quem quer que tenha criado o mundo o criou para ele.

Isso é o mesmo que imaginar uma poça acordando uma bela manhã e pensando: “Que mundo interessante este em que eu vivo — que buraco interessante este em que eu vivo —, estou muito bem-acomodada nele, não? Na verdade, me encaixo tão incrivelmente bem aqui que ele só pode ter sido feito para mim!”. Esta é uma ideia tão poderosa que, mesmo enquanto o sol vai subindo no céu e o ar ficando cada vez mais quente, e mesmo enquanto a poça vai ficando menor e menor, ela ainda se agarra desesperadamente à noção de que tudo vai ficar bem, porque este mundo foi feito para que ela existisse, foi criado com esse propósito; e então acaba sendo pega de surpresa pelo momento em que enfim desaparece. Acho que isso é algo a que deveríamos ficar mais atentos. Todos sabemos que em algum momento do futuro o universo vai acabar; e, bem antes disso, em algum outro ponto, o sol vai explodir. Nós achamos que ainda temos muito tempo para nos preocuparmos com isso, mas, por outro lado, isso é algo muito perigoso de dizer. Olhem só o que supostamente vai acontecer no dia 1º de janeiro de 2000 — não venham me dizer que não tivemos nenhum aviso de que o século iria terminar! Acredito que precisamos ter uma perspectiva mais ampla de quem somos e o que estamos fazendo aqui se quisermos sobreviver por muito tempo.

Existem algumas coisas estranhas na perspectiva que adotamos para enxergar o mundo. O fato de vivermos nas profundezas de um poço gravitacional, na superfície de um planeta coberto de gases que gira em torno de uma bola de fogo nuclear a 150 milhões de quilômetros de distância, e ainda acharmos isso normal indica claramente quão distorcida nossa perspectiva pode ser; mas nós já fizemos várias coisas ao longo de nossa história intelectual para corrigir alguns de nosso erros de interpretação. Curiosamente, muitas delas vieram da areia, então vamos falar um pouco sobre as quatro idades da areia.

Da areia nós fizemos o vidro, do vidro fizemos as lentes e das lentes fizemos os telescópios. Quando os grandes precursores da astronomia, como Copérnico, Galileu e outros, voltaram seus telescópios para o céu e descobriram que o universo era um lugar espantosamente diferente do que esperavam; e que, longe de o nosso mundo ser a maior parte do universo, é apenas um minúsculo ponto girando em torno de uma pequena bola de fogo nuclear, que por sua vez é uma das milhões e milhões e milhões de outras que compõem o universo, e que ainda precisamos lidar com a possibilidade de haver milhões de universos; bem, isso corrigiu um pouquinho a perspectiva inicial de que o universo era nosso.

Esse é um conceito que me fascina, e, como comentei com alguém hoje mais cedo, gostei muito de um livro que li recentemente de David Deutsch, que é um defensor da teoria dos múltiplos universos, chamado “A essência da realidade”, no qual ele explora a noção, baseada na física quântica, de que existe não só um universo, mas multiversos. Ela surgiu da famosa dicotomia onda/partícula em relação ao comportamento da luz — a de que não é possível medi-la como onda quando ela se comporta como uma onda, tampouco como uma partícula quando ela se comporta como uma partícula. Como isso pode ser possível? David Deutsch afirma que, se imaginarmos que nosso universo é simplesmente uma camada, e que existe uma multiplicidade infinita de universos paralelamente a ele em ambas as direções, isso não só resolve o problema como faz desaparecer por completo. Esse é precisamente o comportamento que se espera da luz sob as mesmas circunstâncias. A mecânica quântica possui alguns conceitos que poderiam ser aplicados à ideia de que o universo se comporta como se existissem múltiplos universos, mas custa-nos crer que esse possa ser o caso.

Isso nos leva de volta a Galileu e ao Vaticano. Na verdade, o que o Vaticano disse a Galileu foi: “Nós não discordamos das suas observações, mas apenas da explicação que você dá para elas. Você pode dizer sem problemas que os planetas fazem esse negócio aí enquanto ficam rodando e que é como se nós fôssemos um planeta e todos esses outros, assim como nós, estivessem girando ao redor do sol; você pode dizer que é como se isso estivesse acontecendo, mas não pode dizer que é o que está acontecendo, porque nós temos controle total sobre as verdades universais e, além disso, simplesmente custa-nos crer que esse possa ser o caso”. Da mesma forma, acredito que custa-nos crer na ideia de que existam múltiplos universos, mas talvez esta seja apenas mais uma daquelas coisas difíceis de acreditar com as quais precisamos aprender a viver, assim como aprendemos a viver com um monte de coisas delas no passado.

O outro detalhe que essa visão do universo nos traz é que, no fim das contas, ele é composto quase inteiramente de nada, o que é um tanto preocupante. Para onde quer que olhe, você depara com nada, com um ou outro minúsculo grãozinho de rocha ou luz aqui e ali. Mesmo assim, ao observarmos esses grãozinhos em meio ao vasto nada, pudemos começar a estabelecer certos princípios, certas leis, como a gravidade e tudo mais. Então essa foi a visão macroscópica do universo que surgiu com a primeira Idade da Areia.

A próxima Idade da Areia é a microscópica. Nós colocamos as lentes de vidro nos microscópios e olhamos para baixo para analisar o universo microscopicamente. Então começamos a entender que, quando descemos ao nível subatômico, o mundo concreto em que vivemos também consiste, o que é novamente um tanto preocupante, em quase nada — e que sempre que encontramos algo ele acaba se mostrando não exatamente algo, mas apenas a probabilidade de que haja algo ali.

De um jeito ou de outro, esse tal de universo é bastante enganoso. Para onde quer que olhemos, ele começa a parecer extremamente alarmante e perturbador para a nossa ideia do que somos — criaturas grandes, fortes e tangíveis que vivem em um universo que existe quase só para nós —, o que simplesmente não é o caso. A essa altura, ainda estamos deduzindo a partir disso toda sorte de princípios fundamentais, descobrindo como a gravidade funciona, as leis que regem as forças nucleares fortes e fracas, reconhecendo a natureza da matéria, das partículas e assim por diante; porém, mesmo depois de entender esses fundamentos, ainda não conseguimos descobrir direito como funcionam, porque a matemática por trás deles é bastante complicada. Então, acabamos desenvolvendo uma visão quase rudimentar da maneira como tudo funciona, porque é o melhor que nossa matemática consegue fazer. Não pretendo de forma alguma desmerecer Newton, até porque acho que ele foi a primeira pessoa a notar que havia princípios em ação que eram diferentes daquilo que conseguíamos ver à nossa volta. Sua primeira lei do movimento — a de que algo continuará em repouso ou em movimento até outra força agir sobre ele — é algo que nenhum de nós, vivendo em plena gravidade, envolto por gases, já tenha visto, pois tudo o que colocamos em movimento alguma hora para. Foi somente através da observação e cálculos muito minuciosos e da dedução dos princípios subjacentes ao que todos podíamos ver acontecendo que ele surgiu com esses princípios que todos conhecemos e reconhecemos como as leis do movimento; mas isso não deixa de ser, dentro dos parâmetros modernos, uma visão um tanto rudimentar do universo. Como disse, não quero dar nenhuma impressão de desmerecimento, pois esses avanços foram simplesmente monumentais, mas ainda não fazem muito sentido para nós.

Existe toda uma variedade de entidades de que também temos consciência, além das partículas, forças, mesas, cadeiras, rochas e assim por diante, mas que são quase invisíveis à ciência; quase invisíveis porque a ciência não tem praticamente nada a dizer sobre elas. Estou falando de cães, gatos, vacas e de nós mesmos. Nós, seres vivos, estamos muito longe de qualquer coisa que a ciência tenha a dizer, tão longe que mal nos reconhecemos como algo sobre o qual a ciência deveria ter alguma opinião.

Posso imaginar Newton sentando-se para elaborar as leis do movimento e para desvendar como o universo funciona enquanto um gato zanzava por perto. O motivo pelo qual não tínhamos a menor ideia de como os gatos funcionavam era porque, desde a época de Newton, nos baseávamos no princípio bem simples de que, essencialmente, para vermos como as coisas funcionam, era preciso desmontá-las. Mas, se você tentar desmontar um gato para ver como ele funciona, a primeira coisa que terá em mãos é um gato que parou de funcionar. A vida possui um nível de complexidade que vai além da nossa compreensão; ela é tão avançada em relação a qualquer coisa sobre a qual temos algum tipo de entendimento que simplesmente pensávamos nela como um tipo diferente de objeto, um tipo diferente de matéria. A “vida”, algo cuja essência é por si só misteriosa, viria de Deus — e essa era a única explicação que tínhamos. A bomba é lançada em 1859, quando Darwin publica “A origem das espécies”. Demora bastante para sacarmos qual é a dessa obra e começarmos a entendê-la, porque ela não só nos parece inacreditável e totalmente degradante em relação a nós mesmos, como representa um grande impacto em nosso sistema de crenças descobrirmos que não apenas não somos o centro do universo e não fomos criados a partir de nada — também viemos de uma espécie de gosma e, para chegarmos até aqui, antes fomos macacos. Não soa muito bem aos ouvidos. E, para completar, não temos como ver nada disso acontecendo. De certa forma, Darwin foi como Newton, no sentido de que foi a primeira pessoa a enxergar princípios subjacentes que não eram nem um pouco óbvios no seu mundo cotidiano. Tivemos que fazer um grande esforço intelectual para compreender a natureza do que acontecia ao nosso redor e não tínhamos nenhum exemplo claro, óbvio e cotidiano da evolução para mostrar. Até hoje continua sendo um pouco complicado, quando você tenta convencer alguém que não acredita nessa coisa toda de evolução, mostrar um exemplo — eles são bem difíceis de encontrar nos termos de observação cotidiana.

Isso nos leva à terceira Idade da Areia. Nesse ponto, descobrimos que era possível produzir mais uma coisa a partir dela: silício. Com isso, desenvolvemos o chip de silício — e, de repente, eis que se abre para nós um universo não de partículas e forças elementares, mas das coisas que nos dizem como elas funcionam; o que o chip de silício nos revelou foi o processo. Ele nos permite realizar cálculos matemáticos a uma velocidade alucinante, simular processos, muito simples no fim das contas, análogos à vida em sua simplicidade; repetição, looping, ramificação, retroalimentação, que é a base de tudo o que você faz em um computador e de tudo o que acontece na evolução. De repente, temos um protótipo com que trabalhar (embora as primeiras máquinas fossem terrivelmente lentas e desengonçadas), mas aos poucos vamos criando um protótipo dessa coisa que antes só podíamos adivinhar ou deduzir — e você precisava ter uma mente muito afiada e lúcida inclusive para deduzir o que acontecia, uma vez que isso era nem um pouco óbvio e até contraintuitivo, especialmente para uma espécie tão orgulhosa quanto a nossa.

O computador estabelece uma terceira era de perspectiva, pois ele de repente nos permite ver como a vida funciona. Este é um momento de extraordinária importância, pois fica claro que a vida não vem de cima para baixo, mas de baixo para cima, e todo o conhecimento que um usuário de computadores possui agora passa a existir; isso, por sua vez, significa que a evolução não é algo específico, pois qualquer um que já tenha analisado a maneira como os programas de computador funcionam sabe que a repetição de linhas de código é muito simples.

Então, de repente, a evolução deixa de ser um bicho de sete cabeças. É mais ou menos como o seguinte cenário: numa bela terça-feira uma pessoa é vista em uma rua de Londres cometendo um crime. Dois detetives estão investigando o caso, tentando descobrir o que aconteceu. Um deles é um detetive do século XXI, enquanto o outro, por um milagre da ficção científica, vem do século XIX. O problema é o seguinte: a pessoa que foi claramente vista e identificada na rua londrina na terça-feira foi vista por outra pessoa, uma testemunha igualmente confiável, em uma rua de Santa Fé no mesmo dia. Como é possível? O detetive do século XIX só pode pensar que foi por conta de alguma intervenção mágica. Já o detetive do século XXI diz apenas: “O suspeito pegou um avião. Não sei qual foi o voo e pode ser um pouco complicado descobrir, mas isso não é por si só um mistério”. Estamos habituados à ideia de viajar de avião. Não sabemos em que companhia aérea o criminoso viajou, mas sabemos, grosso modo, que ele fez isso. Acredito que, à medida que ficamos mais familiarizados com o papel desempenhado pelo computador e com a maneira como ele simula o processo de elementos extremamente simples gerando resultados extremamente complexos, a ideia de a vida ser um fenômeno emergente se tornará cada vez mais fácil de engolir.Talvez jamais cheguemos a saber quais exatamente foram os passos que a vida deu em seus estágios primordiais neste planeta, mas isso não configura por si só um mistério.

Então, o ponto a que chegamos — e embora a primeira onda de choque por essa chegada tenha sido em 1859, foi o advento do computador que nos demonstrou isso de forma indiscutível —pode ser resumido da seguinte forma: “Terá o universo se desenvolvido não de cima para baixo, mas sim de baixo para cima? Pode a complexidade surgir dos níveis mais inferiores de simplicidade?”. Sempre me pareceu bizarro que a ideia de Deus como criador pudesse ser considerada explicação suficiente para o nível de complexidade que existe à nossa volta, porque isso simplesmente não explica de onde Ele veio. Se imaginamos que existe um criador, isso implica um plano de criação e que, assim sendo, cada coisa que ele cria ou possibilita que seja criada encontra-se em um nível mais simples do que ele próprio, o que por sua vez nos obriga a perguntar: “Qual é o nível acima do criador?”. Há um modelo do universo que diz que ele é sustentado por um monte de tartarugas umas em cima das outras até o fundo, mas o que temos aqui são um monte de deuses uns em cima dos outros até o topo. Não é uma resposta muito boa — mas uma solução “de baixo para cima”, por outro lado, que se baseia naquela tautologia incrivelmente poderosa segundo a qual “tudo o que acontece acontece”, lhe dá uma resposta tão simples e convincente que não é necessária nenhuma outra explicação.

Mas tem uma coisa interessante. Eu falei que minha pergunta seria “existe um Deus artificial?” e agora quero abordar a questão de por que a ideia de Deus é tão persuasiva. Já expliquei qual, a meu ver, é a origem desse tipo de ilusão; ela vem de um equívoco de percepção da nossa parte, por não levarmos em conta que somos seres que evoluíram para ocupar um determinado terreno, em um determinado ambiente, com um determinado conjunto de habilidades e visões de mundo que nos possibilitaram sobreviver e prosperar com bastante sucesso. Mas parece haver uma ideia ainda mais poderosa do que essa, e é esta ideia que eu gostaria de apresentar. Segundo ela, o posto no topo da pirâmide que antes dizíamos ser a fonte de tudo o que existe talvez não esteja necessariamente vago só porque agora afirmamos que a fonte não está ali.

Deixe-me explicar o que quero dizer com isso. Nós criamos um monte de coisas no mundo, nós o modificamos de todas as maneiras imagináveis. Isso é muito, muito claro. Construímos o auditório em que estamos, desenvolvemos toda sorte de equipamentos complexos, como computadores e tudo mais, mas também inventamos um sem-número de entidades fictícias extremamente poderosas. Será então que deveríamos dizer: “foi uma péssima ideia, uma idiotice; vamos simplesmente nos livrar disso”? Bem, vou lhe dizer qual é a outra entidade fictícia: o dinheiro. O dinheiro é totalmente inventado, mas é muito poderoso em nosso mundo; todos temos carteiras, que possuem nota de dinheiro dentro, mas o que essas notas podem fazer? Não é possível colocá-las para cruzar, fritá-las ou viver dentro delas, não dá para fazer absolutamente nada de útil com elas, exceto trocá-las com outras pessoas — e, assim que fazemos isso, todo tipo de coisas extraordinárias acontece, porque essa é uma invenção em que todos concordamos em acreditar. Não achamos que seja certo ou errado, bom ou mau; mas a questão é que, se o dinheiro desaparecesse, toda a estrutura corporativa do mundo que conhecemos entraria em colapso. Mas se todos nós desaparecêssemos, o dinheiro desapareceria também. ele não possui nenhum significado para além de nós mesmos; é algo que criamos e que tem o poder de moldar o mundo, porque é algo em que todos concordamos em acreditar.

Gostaria que alguém escrevesse uma história evolucionária da religião, pois a maneira como ela se desenvolveu me parece revelar toda uma série de estratégias evolucionárias. Pense na corrida armamentista que transcorre entre duas espécies que vivem em um mesmo ambiente — por exemplo, a corrida entre o peixe-boi amazônico e o tipo específico de junco que ele come. Quanto mais juncos o peixe-boi come, mais os juncos desenvolvem sílica em suas células para atacar os dentes do peixe-boi; e quanto mais sílica houver nos juncos, maiores e mais fortes ficam os dentes do peixe-boi. Um lado faz uma coisa, o outro contra-ataca. Como sabemos, ao longo da evolução e da História, corridas armamentistas impulsionam a evolução de forma extraordinária e no mundo das ideias você pode ver algo bem parecido acontecer.

Tenho certeza de que todos concordamos que a invenção do método científico e da ciência é o mais poderoso conceito intelectual que temos, a estrutura mais vigorosa para pensarmos, investigarmos, compreendermos e desafiarmos o mundo à nossa volta, e ele é sustentado pela premissa de que qualquer ideia está ali para ser atacada; se ela suportar o ataque, vive para lutar mais um dia, se não, sinto muito. A religião não parece funcionar assim; ela possui algumas ideias em seu cerne que chamamos de sagradas, divinas ou sei lá o quê. Essa é uma noção com a qual estamos tão familiarizados, quer concordemos com ela ou não, que é meio estranho pensar em qual é o seu verdadeiro sentido, porque o que ela realmente significa é: “Esta é uma ideia ou noção sobre a qual você não pode falar nada de mau; é simplesmente proibido. Por que não? Ora, porque não!”. Se alguém votar em um partido político com o qual você não concorda, você tem a liberdade de argumentar contra isso se quiser; cada um tem sua própria opinião e ninguém fica ofendido por isso. Se alguém acha que os impostos devem aumentar ou diminuir, você está livre para debater o assunto, mas se, por outro lado, alguém disser “eu não devo acendera luz aos sábados” você tem que dizer “está bem, eu respeito isso”. E o mais bizarro é que, enquanto dou esse exemplo, estou pensando “será que tem algum judeu ortodoxo na plateia se sentindo ofendido com o que acabei de falar?”. Mas não pensei “talvez tenha alguém de esquerda, de direita ou que concorda com este ou outro ponto de vista econômico na plateia” quando falei sobre as outras coisas. Entretanto, no momento em que digo algo relacionado às crenças — vou me arriscar aqui e dizer irracionais — de alguém, todos começamos a pisar em ovos, a entrar na defensiva e dizer: “Não, não podemos atacar isso; é uma crença irracional, mas temos que respeitá-la”.

É mais ou menos como, se pensarmos em termos de evolução animal, um animal que desenvolveu uma carapaça incrível à sua volta, como uma tartaruga, que não deixa nada atravessar seu “escudo” protetor. No caso de uma ideia, nós pensamos “esta é uma ideia sagrada ou divina, então é melhor não mexer com ela”, mas qual o sentido disso? Por que é perfeitamente legítimo defender o partido trabalhista ou o conservador, os republicanos ou os democratas, o modelo econômico “x” ou “y”, o Macintosh ou o Windows, mas é proibido ter uma opinião sobre como o universo teve início ou sobre quem o criou? Como assim? Por que levantamos esse muro em volta da questão, se não pelo simples motivo de que é o que estamos acostumados a fazer? Não há nenhuma outra razão para tanto, é só uma dessas coisas que vão acontecendo, acontecendo e, quando entram em loop, se tornam muito, muito poderosas. Então, estamos habituados a não contestar ideias religiosas. Porém, quando você analisa friamente a questão, não há motivo algum para essas ideias não serem tão abertas a debate quanto qualquer outra, exceto por termos mais ou menos concordado entre nós que não deveriam.

Tem um livro muito interessante chamado “Man on Earth” (O homem na Terra), escrito por um antropólogo que passou por Cambridge, chamado John Reader, em que ele descreve a maneira como. . . bem, vou parar um pouco e lhes contar sobre o livro. Trata-se de uma série de estudos sobre diferentes culturas que surgiram no mundo em condições de relativo isolamento, em ilhas, vales ou seja lá onde for, de modo que é possível tratá-las, até certo ponto, como se fossem experimentos de laboratório. Portanto, você pode ver exatamente até onde o ambiente e suas circunstâncias afetaram a maneira como a cultura dessas populações surgiu. São estudos fascinantes. Aquele em que estou pensando agora diz respeito à cultura e à economia de Bali, que é uma ilha pequena e densamente povoada cujo meio de subsistência é o arroz. Ora, o arroz é um alimento incrivelmente eficaz e você pode cultivar uma quantidade imensa dele em um espaço relativamente pequeno, mas necessita de trabalho intensivo e de uma cooperação muito, muito afinada entre as pessoas que vivem no local, especialmente quando se trata de uma grande população em uma pequena ilha que depende de sua colheita. Quando olhamos hoje para a maneira como a agricultura do arroz funciona em Bali, ficamos um tanto intrigados, pois ela é totalmente pautada na religião. A sociedade em Bali é organizada de tal forma que a religião permeia todo e qualquer aspecto dela, e todos naquela cultura são definidos de maneira muito precisa em termos de quem são, qual seu status e qual sua função na vida. É tudo definido pela igreja; eles possuem calendários e um conjunto de costumes e rituais específicos e, por estranho que pareça, são extremamente eficientes. Nos anos 1970, estrangeiros chegaram e viram que a colheita era determinada pelo calendário do templo. Isso não lhes pareceu fazer o menos sentido, então eles disseram: “Livrem-se disso, podemos ajudá-los a tornar a colheita muito mais produtiva. Usem estes pesticidas, usem este calendário, façam isto, aquilo e aquilo outro”. Então eles começaram a fazer o que os estrangeiros mandaram. Durante dois ou três anos a produção de arroz aumentou drasticamente, mas o equilíbrio ambiental ficou totalmente desregulado. Em pouco tempo, a produção de arroz voltou a despencar; então os balineses disseram “Que se dane, vamos voltar para o calendário do templo!”, reinstauraram o método antigo e tudo voltou a funcionar perfeitamente. Basear a colheita do arroz em algo tão irracional e sem sentido quanto uma religião é uma burrice — eles deveriam encontrar uma solução mais lógica do que essa. Mas, da mesma forma, eles também poderiam nos dizer: “A sua cultura e a sua sociedade funcionam à base de dinheiro, e isso é uma invenção, então por que não se livram dele e simplesmente começam a colaborar uns com os outros?”. Nós sabemos que não vai dar certo!

Então, parece que criamos metassistemas que estão acima de nós para preencher o espaço que antes reservávamos a uma entidade que deveria ser o arquiteto de tudo, o criador; e justamente porque nós, como espécie, arquitetamos e criamos esse tipo de entidade e então nos permitimos acreditar que ela existe, um monte de coisas começa a acontecer que não aconteceria de outra forma.

Deixe-me tentar ilustrar o que estou dizendo. O que vou falar é muito especulativo porque não sei nada sobre o tema, então pensem nisso mais como um exercício mental do que como uma explicação ou coisa parecida. Quero falar sobre Feng Shui, que é algo que conheço muito pouco, mas que sempre vem à tona ultimamente quando o assunto é decidir como um edifício deve ser projetado, construído, situado, decorado, etc. Pelo que sei, temos que pensar que a construção é habitada por dragões e imaginar como um dragão se moveria dentro dela. Então, se um dragão não for ficar feliz na casa, você precisa colocar um aquário vermelho ali ou uma janela acolá. Isso parece um total e completo absurdo, pois qualquer coisa que envolva dragões só pode ser absurda — dragões não existem, portanto qualquer teoria baseada em como eles se comportam não faz sentido algum. Que tipo de idiota imagina que dragões podem nos dizer como construir nossas casas? Ainda assim, me parece que, se você esquecer por um instante a explicação oferecida, pode haver algo de interessante nisso tudo, que é o seguinte: todos sabemos, por experiência própria, que alguns dos lugares em que moramos, trabalhamos, visitamos ou nos hospedamos são mais confortáveis, agradáveis e aconchegantes do que outros. Nunca houve uma maneira concreta de quantificar isto, mas durante este século vários arquitetos acharam que sabiam como fazê-lo; então surgiu o pavoroso conceito da casa como uma máquina para se viver dentro; tivemos Mies van der Rohe e outros erguendo retângulos de vidro e coisas de formato estranho que supostamente formam parte de alguma teoria. É tudo projetado de forma meticulosa, mas, mesmo assim, não é muito agradável viver nessas construções. Muita teoria já foi desenvolvida a respeito disso, mas, quando você se senta e começa a trabalhar com um arquiteto (e já passei por essa experiência estressante, assim como certamente muitos de vocês), o que quer é tentar descobrir como um determinado cômodo deveria funcionar, tentar juntar tudo o que diz respeito à iluminação, aos ângulos e a como as pessoas vão se mover e viver ali de forma integrada — e um monte de outras coisas sobre as quais você não faz ideia e que acabam ficando de fora. Você não sabe que importância dar a uma coisa ou outra; você tenta entender algo quando, na verdade, não sabe muito bem do que se trata, mas existem mil teorias e vertentes da engenharia e da arquitetura e você não sabe ao certo o que pensar de nada disso. Compare isso com alguém jogando uma bola de críquete na sua direção. Você pode se sentar, ficar olhando e dizer “ela está vindo formando um ângulo de 17 graus”, pegar um papel, começar a fazer cálculos, etc. e, mais ou menos uma semana depois de a bola passar voando por você, talvez descubra para onde ela estava indo e como apanhá-la. Por outro lado, você pode simplesmente esticar a mão e agarrar a bola, porque nós temos inúmeras aptidões inatas, capazes de calcular inúmeras variáveis complexas de inúmeros fenômenos igualmente complexos, o que, por sua vez, nos permite dizer: “Olha, uma bola de críquete está vindo; pegue!”.

O que estou querendo dizer é que Feng Shui e um monte de outras coisas se enquadram exatamente nesse tipo de problema. Existem diversas coisas que sabemos como fazer, mas não necessariamente sabemos o que estamos fazendo, nós apenas fazemos. Voltemos para a questão de como descobrir de que forma uma sala ou uma casa deveria ser projetada. Em vez de tentar determinar os ângulos certos ou decidir quais princípios de arquitetura vai aproveitar e quais modismos arquitetônicos vai abandonar, apenas pergunte a si mesmo: “Como um dragão viveria aqui?”. Estamos acostumados a pensar em termos de criaturas orgânicas; uma criatura orgânica pode consistir em uma vasta complexidade de milhares de variáveis diferentes que estão além da nossa capacidade de compreensão, mas nós sabemos como criaturas orgânicas vivem. Nós nunca vimos um dragão, mas todos temos uma ideia de como eles são, então podemos dizer: “Bem, se um dragão passasse por esta casa, ele ficaria preso ali e um pouco irritado deste lado, porque não conseguiria ver aquilo, daí balançaria o rabo e derrubaria aquele vaso”. Você descobre uma maneira de o dragão ficar feliz e, quando menos espera, tem um lugar que faz sentido para outras criaturas orgânicas, como nós, viverem.

Então, o que quero dizer é que, à medida que nos tornarmos mais e mais esclarecidos cientificamente, é bom nos lembrarmos de que as invenções com as quais povoamos nosso mundo no passado talvez tenham alguma função cujos elementos fundamentais mereçam ser compreendidos e preservados, em vez de simplesmente jogarmos fora as partes boas junto com as ruins; porque, embora possamos não aceitar os motivos apresentados para a sua existência, podem muito bem haver bons motivos práticos para elas, ou para algo parecido com elas, existirem. Imagino que, quanto mais formos avançando no campo da vida digital ou artificial, mais e mais propriedades inesperadas começarão a surgir das coisas que vemos acontecer, e que isso forma uma analogia bastante precisa com as entidades que criamos à nossa volta para moldar nossa vida e para que possamos todos trabalhar e viver juntos. Portanto, eu sustento que, embora não exista um Deus de verdade, existe um Deus artificial — e acredito que deveríamos ter isso em mente. Esse é o argumento que gostaria de trazer para o debate. Agora sintam-se à vontade para começar a atirar as cadeiras!

Pergunta: Qual é a quarta Idade da Areia?

Deixem-me voltar um pouco e falar sobre a maneira como nos comunicamos. Tradicionalmente, temos um monte de maneiras através das quais podemos nos comunicar. Uma delas é de “um para um”; falamos uns com os outros e travamos uma conversa. Outra é de “um para muitos”, que é o que estou fazendo agora com vocês, ou o que aconteceria se alguém se levantasse e cantasse uma canção ou anunciasse que precisamos ir para a guerra. Além disso, há a comunicação de “muitos para um”; quanto a essa, nós temos uma versão bastante fuleira, mambembe e que não funciona direito que chamamos de democracia, mas em um estado mais primitivo eu me levantaria e diria “Muito bem, nós vamos para a guerra” e talvez alguns gritassem de volta “Não, não vamos!” — daí teríamos uma comunicação de “muitos para muitos” na discussão que estouraria em seguida!

Neste século (e no anterior), simulamos a comunicação de “um para um” através do telefone, com o qual imagino que todos estejamos familiarizados. Temos também a comunicação de “um para muitos” — e esse é um tipo que existe a dar com o pau — rádio, mídia impressa, jornalismo, etc. Recebemos uma enxurrada de informações vindas de toda parte e elas podem ir parar em qualquer lugar, indiscriminadamente. É curioso, mas não precisamos voltar muito em nossa História para chegar a um ponto em que toda a informação que nos alcançava era relevante para nós; logo, tudo o que acontecia, qualquer notícia, fosse sobre algo que havia acontecido conosco, na casa ao lado ou na aldeia vizinha, ao nosso redor ou dentro do nosso horizonte, acontecia no nosso mundo — e, se reagíssemos a esse acontecimento, o mundo reagia de volta. Tudo era relevante para nós; portanto, se alguém sofresse um acidente grave, poderíamos nos reunir e realmente ajudar. Hoje em dia, por conta do excesso de comunicação do tipo “um para muitos”, se um avião cai na Índia, isso nos deixa nervosos, mas nosso nervosismo não tem impacto algum. Não somos muito capazes de distinguir uma tragédia que ocorreu do outro lado do mundo de algo que aconteceu ali na esquina. Já não conseguimos diferenciar as duas coisas e é por isso que podemos ficar transtornados com algo que ocorreu a alguém de um filme hollywoodiano, mas talvez nem tanto quando a mesma coisa acontece à nossa irmã. Hoje, estamos de tal forma distanciados e alienados que não é de se espantar que nos sintamos tão angustiados e isolados no mundo, pois o mundo causa impacto em nós, mas nós não podemos causar impacto nele.

Há também a comunicação de “muitos para um”; nós temos isso, mas ainda não funciona muito bem e não existe muito dela por aí. No fundo, nossos sistemas democráticos são exemplo desse tipo de comunicação e, embora não sejam muito bons, com o tempo eles irão melhorar drasticamente.

Mas o terceiro tipo de comunicação, de “muitos para muitos”, nem sequer existia antes do advento da internet, que, como todos sabemos, funciona através de fibras óticas. É a comunicação entre nós mesmos que forma a quarta Idade da Areia. Vejamos, por exemplo, o que eu disse antes sobre o mundo não reagir a nós quando reagimos a ele. Eu me lembro da primeira vez que comecei a levar a internet a sério. Foi uma coisa muito boba. Tinha um cara, um estudante de computação na Carnegie Mellon, que gostava de beber o refrigerante Dr Pepper light. Havia uma máquina de bebidas a alguns andares de distância dele, e ele costumava ir até ela para comprar uma latinha. Só que o refrigerante muitas vezes estava em falta, então ele vivia indo até lá à toa. Depois de algum tempo, ele pensou: “Peraí, tem um chip dentro da máquina, tenho um computador e há uma rede conectando todo esse prédio, então por que eu não coloco a máquina de refrigerante em rede para poder acessá-la a partir do meu terminal sempre que quiser para descobrir se iria até lá à toa ou não?”. Então ele conectou a máquina à rede local, mas a rede local fazia parte da internet — então, de repente, qualquer pessoa no mundo poderia ver o que estava acontecendo naquela máquina de refrigerante. Ora, isso pode não ser uma informação fundamental, mas não deixa de ser uma curiosidade fascinante; todos podiam saber o que se passava na máquina de refrigerante. E a coisa evoluiu, porque o chip da máquina não dizia apenas “O slot que contém latinhas de Dr Pepper light está vazio”, mas dava também várias outras informações, como: “Há sete latinhas de Coca-Cola e três latinhas de Diet Coke, elas estão armazenadas a tal temperatura e a última vez que a máquina foi abastecida com elas foi no dia tal”. Havia um monte de informações ali e uma em especial era espetacular: se alguém tivesse inserido cinquenta centavos e deixado de pressionar o botão, ou seja, se a máquina estivesse “grávida”, então você poderia, a partir de qualquer computador do mundo, conectar-se à ela e fazer aquela latinha cair! Alguém poderia estar passando pelo corredor e, de repente, bum! — uma latinha de Coca-Cola! Como isso pôde acontecer? Bem, obviamente, foi porque alguém a 8 mil quilômetros de distância quis! Eu sei que esta é uma história muito boba, mas também fascinante, e o que ela me ensinou foi que esta é a primeira vez em que podemos voltar a ter uma relação de ação e reação com o mundo. Talvez não seja tão importante podermos alcançar o corredor de uma universidade a 8 mil quilômetros de distância e fazer uma latinha de Cola-Cola cair, mas é o primeiro tiro na guerra que nos levará a toda uma nova maneira de nos comunicarmos. Então esta, a meu ver, é a quarta Idade da Areia.



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.