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Existe um nerd artificial? – A goumertização da cultura geek

Ser nerd é cult e tá na moda! Essa era uma frase impensável há alguns anos. Nerd era aquele cara CDF que gostava de estudar, da sua cultura geek e por isso sofria vários abusos diários. Hoje você não precisa nem gostar de ler pra ser nerd. Basta assistir Big Bang Theory, Star Wars, alguns filmes da Marvel e da DC e ter jogado Super Mario Bros. em algum momento na sua vida. Com o sucesso da série big Bang Theory e de filmes de super heróis, a indústria viu que o universo geek pode ser muito lucrativo e começaram a investir nisso. Brinquedos, bonecos, blusas, filmes, tudo o que você possa imaginar começou a ser produzido voltado para este público. Porém…

 

Antes de continuar, preciso dizer algo: não quero dizer neste texto que o universo geek é algo exclusivo dos nerds, e sim falar do problema da banalização, “goumertização”, a romantização do nerd (outro dia vi um livro chamado “diário de um nerd blábláblá e ligeiramente tímido” e fiquei pensando “cara, quando que o nerd se transformou no galã de livros adolescentes?”) e do consumismo que foi criado nesse meio. É claro que nerds gostam de mostrar as coisas que amam e querem que as pessoas passem a amar também. Lembro quando conheci meu irmão e ele me disse que nunca tinha assistido Star Wars e a primeira coisa que fiz foi sentá-lo no sofá e dizer “você vai assistir isso AGORA”. Mas o que ta acontecendo não é bem isso.

 

Antes dessa moda, e aqui vou falar da minha própria vivência, o nerd era constantemente humilhado por ser nerd. Já tive meus livros rasgados, jogados no lixo, rabiscados, maquetes de escola quebrada, apanhei. Pessoas que sozinhas conversavam comigo e caminhavam do meu lado, mas que diziam “cara, agora se afasta para ninguém me ver junto de você”. Sabe essas pessoas que me faziam tão mal? Hoje dizem que são os maiores nerds que você respeita, mas que acha que cosplay é coisa de adulto babaca que não cresceu (engraçado, há alguns anos era isso que diziam das coisas que eu gosto).

 

Mas isso não é tudo: essa moda gerou uma ânsia profunda nas pessoas de quererem fazer parte do meio, pois se antes o nerd era o excluído, hoje quem não diz que é nerd se sente assim. Lembro de uma discussão em um grupo de whatsapp, onde uma pessoa estava brigando por que queria ser incluída como nerd por ver Grey’s Anatomy, e quando falaram que isso não era uma série nerd ela teve um surto, discutiu e brigou, por que aquilo tinha, sim, que ser nerd, que ela tinha que ser nerd e estar inserida no meio.

 

E temos aquela pessoa que sempre foi nerd, mesmo antes dessa moda estourar. Vocês realmente acham que esta pessoa parou de sofrer bullyng? Que parou de ser humilhada, de ver suas coisas quebradas, rasgadas e de apanhar.

 

Esta moda é algo que eu problematizo há tempos, e sempre tem alguém que me diz “mas Rani, hoje temos muitos produtos voltados para nós e isso é bom”. Bom pra quem? Pro público consumista, que gasta cada vez mais ou para os empresários que enriquecem na mesma proporção? O “Dia da Toalha” (em homenagem ao Douglas Adams), criado em 2001, virou um dia que só serve para impulsionar o consumismo e que, se Adams fosse vivo e visse isso, criticaria com sua acidez característica. Apesar do público nerd sempre ter sido alvo de chacota, nossa cultura não é inclusiva, pois muitas pessoas não tem condições de comprar livros, vídeo-games, HQ,s, mangás, etc. E hoje este meio está ainda mais excludente.

 

Além disso, os produtos voltados para o público nerd, principalmente adaptações para cinema e TV, vão perdendo cada vez mais qualidade com toda essa moda. E aqui eu não falo da liberdade de alterar algumas coisas em adaptações, e sim de mudarem a essência das obras. Falo de colocarem a relação do Coringa e da Arlequina como algo lindo e romântico (quando é totalmente abusivo e violento), de fazerem filmes dos X-Men tendo Mística como principal heroína (OI???) entre outras coisas. Os filmes não são feitos para o nerd, e sim para conquistar mais público consumista. E está dando certo!

 

Claro que existem muitos pontos positivos também. O público geek nunca recebeu tanta atenção, e mesmo quando a moda acabar, vai ficar um “legado” e muito mais pessoas que gostam do que gostamos. Porém, como toda moda, um dia esta chegará ao fim. Com o tempo ser nerd não será mais cult, as empresas acharão outra moda para lucrarem e os nerds voltarão a ser apenas aquelas pessoas maltratadas pelos outros, mas que amam sua cultura e querem que sim, todos amem. É só uma questão de tempo.

 

Aliás, o título desse texto é uma referência à palestra improvisada de Douglas Adams, falando sobre Deus e religiões. A transcrição dessa palestra se encontra no livro O Salmão da Dúvida, resenhado AQUI, e você pode ler também aqui no blog, clicando AQUI.


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Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.