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A fantasia, beleza e música em A Crônica do Matador do Rei

A arte de contar uma história, mostrar um mundo que só existe na cabeça do escritor ou escritora para outras pessoas e fazer estas abstraírem o mundo real e vivenciarem todas as belezas deste novo ambiente, junto com as alegrias e tristezas dos habitantes deste lugar, é uma das coisas mais maravilhosas que existem. É um dom que algumas pessoas têm — e parte destas pessoas nem sabem disso — e outras, como Bram Stocker, Mary Shelley, Clarice Lispector, Victor Hugo, J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis e Liev Tolstói, dominam esta arte de tal forma que ficam eternizados por sua obra. Tenho absoluta certeza que daqui a umas décadas o nome de Patrick Rothfuss estará no meio desta lista tão seleta. Rothfuss não passa apenas a história; ele toca a alma do leitor e da leitora. Em A Crônica do Matador do Rei, sua trilogia de estréia — que ainda não foi finalizada — o autor cria personagens tão humanos, com sentimentos tão reais e uma análise de suas vidas tão profunda que, ao ler seus livros, foi impossível não ver como refletidos os meus próprios sentimentos; alguns trechos, que levarei no coração para sempre, me levaram a pesar pequenas e grandes coisas na minha vida, assim como momentos que vivenciei.

 

Patrick_Rothfuss

Partrick Rothfuss, autor da trilogia “A Crônica do Matador do Rei”.

A Crônica do Matador do Rei conta a história de Kvothe, um Edena Ruh que, quando criança, vê sua família ser assassinada pelo Chandriano, após cantarem uma música sobre ele. Após passar o resto da infância nas ruas, em meio à fome e ao sofrimento, Kvothe vai seguir os passos de um amigo e mentor, que foi acolhido por um tempo pelos Edena, e ir para Universidade. A Universidade não forma “magos” (isso se chama Hogwarts) e os alunos, alunas e docentes de lá não gostam muito de serem denominados assim. Lá, as pessoas aprendem, dentre muitas coisas, simpatias, alquimias, fisiopatias e o nome (o verdadeiro nome) de todas as coisas e elementos. Sabendo o nome de algo, a pessoa tem total controle sobre ele. A história é contada pelo Kvothe adulto, dono da pousada Marco do Percurso, para um cronista e seu amigo e aprendiz, Bast. Portanto, a trilogia tem duas perspectivas: terceira pessoa, quando fala do tempo presente (no início, fim e interlúdios de cada livro) e primeira pessoa, quando o livro aborda a narrativa de Kvothe, tema principal da história. Além disso, Kvothe (a versão adulta) conta sua história em três dias, sendo estes divididos em três livros. Cada um deles é marcado pelos capítulos inicial e final similares, sempre intitulados como Um Silêncio em Três Partes. A forma destes capítulos é similar, porém seu conteúdo difere sempre um dos outros. Tais capítulos caracterizam a trilogia escrita por Rothfuss tanto quanto a frase “A long time ago in a galaxy far, far away”, junto com a chamada, a trilha sonora e o resumo dos acontecimentos no início dos filmes da saga Star Wars. A história da vida de Kvothe é, muitas vezes, interrompida por um interlúdio, onde voltamos para a Pousada Marco do Percurso. É quando a versão adulta de Kvothe faz uma pausa, seja pra cuidar do seu estabelecimento, atender clientes ou outro motivo. Estes interlúdios marcam, sutilmente, uma mudança que a história contada pelo personagem terá, marcando o fim de uma “fase” de sua narrativa e o início de outra.

 

É importante falarmos sobre os Edena Ruh! Os Edena são um povo que vive reunido em trupes e praticamente respiram cultura. Eles  vivem como nômades, espalhando música e teatro por onde passam. Apesar de serem um povo pacífico, eles sofrem muito preconceito, sendo chamados, muitas vezes, de ladrões. Os Edena têm grande orgulho de serem quem são e são receptivos em suas trupes. Porém, eles têm um código próprio, para saber quem é ou não familiarizado com seus costumes, que aplicam assim que um estranho aparece. Caso a pessoa seja familiarizada com os Edena, são tratados como parte da família (os Edena se consideram irmãos e irmãs entre si). Todos esses fatos, apesar de estarem presentes em toda a trilogia, tem muito bem exemplificados em O Temor do Sábio, segundo livro da trilogia.

 

A música, a relação dela com Kvothe e sua importância na vida das pessoas são temas constante nesta trilogia, tratados de maneira profunda e, algumas vezes, poética (apesar de Kvothe odiar poesia, classificando-a como uma música sem melodia). Kvothe tem a música e seu alaúde (o objeto mais importante de sua vida) como um elo com sua família assassinada. Muitas vezes, principalmente em Temor do Sábio, tem alguma música no meio da história, e algumas delas, como uma intitulada O Velho Curtumeiro, acabam ficando extremamente familiares para o leitor. A música tem uma importância tão grande quanto na trilogia O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. Porém, ao contrário da clássica saga de Frodo e sua Sociedade do Anel, muitas vezes as músicas não são declamadas n’A Crônica do Matador do Rei. Tolkien foca, principalmente, na música e na melodia dela, ficando estas na memória de todos os seus fãs; Patrick Rothfuss, por outro lado, foca na relação da música com o intérprete e com os ouvintes, na emoção que esta causa ao ser declamada. Mesmo quando a letra da música não é colocada no livro, eu tive a sensação de estar lá, escutando o Kvothe tocar, e consegui sentir todas as emoções (descritas de forma explícita ou implícita) que o personagem quis passar. Esta é uma das coisas que fazem esta obra ser tão bela. A forma e o carinho que Patrick Rothfuss trata a música é um afago na alma dos leitores e leitoras. Em uma das partes mais belas de O Temor do Sábio, a natureza é caracterizada e poetizada na forma de Feluriana, uma dos Encantados (seres mitológicos). Feluriana é um ser similar à uma sereia, e a relação dela com todos os elementos da natureza (fauna, flora, luz, sombras) é tratada com a mesma familiaridade da relação de Kvothe com seu alaúde. A música faz parte de Kvothe, a natureza faz parte de Feluriana e ambos, música e natureza, se harmonizam. Sentimentos também são personificados como personagens, como a culpa em forma de Cthaeh e o amor em forma de Denna, uma das personagens mais importantes da história. Assim como o amor, Denna é livre e deve ser tratada assim; ela entra na vida das pessoas e parte sem aviso, deixando-as arrasadas, vazias e desnorteadas; os personagens, assim como os leitores e leitoras d’A Crônica do Matador do Rei, não sabem muito sobre Denna.

 

Entre o segundo livro, O Temor do Sábio, e o terceiro, The Doors of Stone (que ainda está sendo escrito), temos um livrinho bem pequeno e maravilhoso chamado A Música do Silêncio, que fala sobre uma das personagens mais carismáticas e misteriosas de A Crônica do Matador do Rei: Auri. Na introdução deste livro, Patrick Rothfuss diz que “talvez você não queira comprar este livro”, e ele tem razão. A Música do Silêncio não é essencial para a série e fala como é uma semana da Auri enquanto ela espera Kvothe, e vi algumas pessoas reclamando que o livro não é bom. Eu discordo delas. A Música do Silêncio é um livro simples e sutil que fala sobre como Auri valoriza todas as pequenas coisas em sua vida, coisas essas que acabam se tornando grandes. Ela trata objetos e lugares como coisas vivas, tendo um respeito enorme por elas. Auri vive e ama os subterrâneos, dando nomes simples às partes do lugar onde habita, como Cricrido (lugar onde tem muitos grilos e eles fazem cri-cri) e Saltos (lugar onde, para se atravessar, tem que saltar sobre algumas pedras). Também não se sabe muito sobre esta personagem, que tem a alma de uma criança e que evita o contato humano. Auri transforma as pequenas coisas da vida em poesia, fazendo objetos simples, como, por exemplo, uma lanterna ou uma flor, terem uma enorme beleza e importância no mundo. Uma peculiaridade sobre A Música do Silêncio é o livro não ter nenhum diálogo. Como Auri passa os dias “sozinha” (sem nenhum contato humano além de seus próprios objetos, os quais ela ama, respeita e se preocupa com a “felicidade” deles), A Música do Silêncio não tem nenhum diálogo, sendo ele todo descritivo, baseando-se nas ações, pensamentos e sentimentos da personagem.

 

Amor, ódio, amizade, preconceito, música, poesia, natureza, sexo, medo e coragem, todos esses elementos são retratados em A Crônica do Matador do Rei, seja explícita ou implicitamente, e a semelhança do mundo criado por Patrick Rothfuss com o nosso é inegável. Alguns de seus personagens personificam sentimentos humanos, sejam eles belos ou não, e o conjunto dos personagens caracteriza nossa sociedade.  A Crônica do Matador do Rei transcende a fantasia e fala sobre o ser humano e sua relação com a música, a poesia e a natureza.

 

Fichas técnicas:

Título: O Nome do Vento
Título original: The Name of the Wind
Série: A Crônica do Matador do Rei #1
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Arqueiro
Formato: Brochura
Edição: 1
Ano de copyright: 2007
Ano da edição traduzida: 2009
Número de páginas: 656
Tradução: Vera Ribeiro
ISBN: 978-85-99296-49-3

 

Título: Temor do Sábio
Título original: The Wise Man’s Fear
Série: A Crônica do Matador do Rei #2
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Arqueiro
Formato: Brochura
Edição: 1
Ano de copyright: 2011
Ano da edição traduzida: 2011
Número de páginas: 960
Tradução: Vera Ribeiro
ISBN: 978-85-8041-032-7

 

Título: A Música do Silêncio
Título original: The Slow Regard of Silent Things
Série: A Crônica do Matador do Rei #2,5
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Arqueiro
Formato: Brochura
Edição: 1
Ano de copyright: 2014
Ano da edição traduzida: 2014
Número de páginas: 144
Tradução: Vera Ribeiro
ISBN: 978-85-8041-353-3



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.