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Contos onde a falta de caráter é uma virtude

Um marquês em busca de seu casaco (um tanto especial); uma ex-prostituta e falsa vidente; uma ladra coagida a fazer um roubo impossível; um bardo de índole duvidosa e um dom especial. Estes são alguns dos personagens que o leitor encontrará nas páginas de Príncipe de Westeros e Outras Histórias. Protagonistas vigaristas, ladrões, trapaceiros e que, algumas vezes, acabam tendo uma índole pior do que a de seus adversários.

Na introdução do livro, George R.R. Martin nos avisa para não confiarmos nas damas e cavalheiros que encontraremos pela frente. Este, acreditem, foi um excelente conselho!

Esta coletânea reúne dez contos, escritos por renomados autores, que variam de estilo: fantasia, suspense, romance, aventura, romance, entre outros. Tais contos foram distribuídos de forma aleatória, e a maioria deles é excelente. Alguns autores usaram personagens de obras anteriores nos seus contos, então a chance de você reencontrar alguém de que goste muito neste livro são bem altas.

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Um dos maiores nomes da literatura fantástica atual, Neil Gaiman ganhou quatro prêmios Hugo, dois Nebula, um World Fantasy, seis Locus, quatro Stoker, dois Mythopoeic Fantasy e uma Medalha Newbery. (trecho retirado do livro)

— O primeiro conto do livro, escrito por Neil Gaiman, é Como o Marquês Recuperou seu Casaco. Utilizando o cenário da Londres de Baixo do seu romance Lugar Nenhum, Gaiman conta a história do Marquês de Carabas, que tem um casaco muito, muito bom (cheio de bolsos visíveis, escondidos, etc.) e, após o perder, faz de tudo para recuperá-lo. Apesar de nunca ter lido Lugar Nenhum, gostei bastante deste conto. Como o Marquês Recuperou seu Casaco é uma fantasia divertida, o protagonista não tem o mínimo de escrúpulos e, logo na primeira página de seu conto, Gaiman já consegue prender a atenção do leitor.

Proveniência, segundo conto do livro, escrito por David W. Ball, é uma história que eu não dei nada por ela, durante as primeiras páginas, e que aos poucos foi me prendendo a atenção. Neste conto, conhecemos Max Wolff, um vendedor de obras de artes para colecionadores, que recebe uma correspondência falando sobre um quadro valiosíssimo que estava desaparecido desde a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, o leitor passa a acompanhar a trajetória desta relíquia e de seus antigos proprietários, e a história, que fica mais intrigante a casa página, acaba chegando a um final totalmente inesperado.

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Gillian Flynn é autora dos best-sellers “Garota Exemplar”. “Lugares Escuros” e “Objetos Cortantes”, que ganhou dois prêmios Dagger. Ex-escritora e crítica da Entertainment Weekly, suas obras já foram publicadas em 40 países. (trecho retirado do livro)

— O terceiro conto deste livro, Qual é a sua Profissão?, de Gillian Flynn, é uma das minhas duas histórias favoritas deste livro (junto com o conto de Scott Lynch, o qual falarei mais tarde.

Neste conto, a protagonista, que eu creio que não teve o nome citado uma única vez no livro (até dei uma revisada no conto, para ter certeza), é uma prostituta que, ao invés de praticar sexo com seus clientes, os masturba. Porém, como diz a primeira frase do conto (na minha opinião, o melhor começo de contos que eu já li), ela precisa parar e passa a ser uma falsa vidente, acabando, assim, conhecendo uma cliente e se envolvendo em uma situação bem perigosa. E, sobre o enredo, eu paro de falar aqui.

Eu não parei de bater punhetas por que não era boa nisso. Parei de bater punhetas por que era a melhor.

A autora de Garota Exemplar consegue manipular o leitor com uma competência fora do comum. Em poucas páginas, Flynn consegue provocar diversos sentimentos no leitor e, assim o tem na mão durante a história inteira. Tive várias opiniões acerca deste conto, durante a leitura (em certo momento, pensei que seria um terror clichê), e em todos os momentos eu estive errado e pensei exatamente como a autora queria.

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O britânico Paul Cornell é escritor de ficção científica e fantasia em romances, quadrinhos e TV. Tem dois romances de fantasia urbana lançados, “London Fall” e “The Severed Streets”, além de ter feito roteiros para “Doctor Who” e de “Batman e Robin”, da DC Comics. Atualmente é o autor de “Wolverine” para a Marvel Comics. (Trecho retirado — e editado — do livro)

Um Jeito Melhor de Morrer, de Paul Cornell, é um dos piores contos do livro, na minha opinião. Cornell utiliza um personagem de várias histórias que ele escreveu, o espião Jonathan Hamilton, e a história se passa em uma realidade paralela à nossa, onde nações da Europa, no século XIX, procuram aprimorar suas habilidades de abrir e controlar dobras multidimensionais no espaço. Este conto usa a teoria do multi-universo, que diz que existem vários Universos paralelos ao nosso e, em cada um deles, existem várias versões do nosso planeta e de nós mesmos. Neste conto, os superiores de Hamilton capturam um outro Hamilton, mais jovem, de outra realidade, e pretendem colocar o velho contra o novo, para ver qual é a melhor.

A premissa do conto é excelente, mas Paul Cornell não aproveita bem o enredo e cria uma história monótona e cansativa.

— O quinto conto do livro, intitulado Um ano e Um dia na Velha Theradane e escrito por Scott Lynch, é, junto com Qual é a sua Profissão?, o melhor conto do livro. Em um livro de contos envolvendo apenas canalhas, ladrões, trapaceiros e vigaristas, era de se esperar que o autor da série Nobres Vigaristas (que, pela Editora Arqueiro, já teve três livros lançados aqui no Brasil: As Mentiras de Locke Lamora — resenha AQUI —, Mares de Sangue — resenha AQUI — e, mais recentemente, República de Ladrões) escrevesse um dos melhores contos do livro. Felizmente, ele não decepcionou.

Scott Lynch, nascido em 2 de abril de 1978 (37 anos). reside na região oeste do Wisconsin, na cidade de New Richmond. Seu livro de estréia foi "As Mentiras de Locke Lamora", primeiro volume da série "Nobres Vigaristas" e finalista do World Fantasy Award de 2007.

Scott Lynch, nascido em 2 de abril de 1978 (37 anos). reside na região oeste do Wisconsin, na cidade de New Richmond.
Seu livro de estréia foi “As Mentiras de Locke Lamora”, primeiro volume da série “Nobres Vigaristas” e finalista do World Fantasy Award de 2007.

Apesar de ser um conto, o enredo é tão extenso que é possível escrever uma bela sinopse para vocês sem soltar nenhum spoiler (eu tenho treinado bastante, falando sobre esse conto por aí.)
Em Um Ano e Um Dia na Velha Theradane, conhecemos a cidade de Theradane, onde dois magos muito poderosos, Jarrow e Ivovandas, se odeiam e batalham incessantemente. Claro, a população de Theradane não tem nada a ver com essa picuinha. E claro, a população de Theradane que sofre as consequências. Também é proibido cometer crimes e ofender os magos, sob o risco do infrator virar uma estátua de bronze (com a alma aprisionada nela) que iluminará perpetuamente a cidade.

Em Theradane, conhecemos a ladra Amarelle Parathis. Proibidos de roubar na cidade, Amarelle e sua gangue, formada por Shraplin (um autômato), Sophara Miris (uma mixologista-maga sênior, procurada por 312 crimes distintos em 18 cidades) e sua esposa Brandwin Miris (armeira, artesã, ilusionista e médica de autômatos) costumam ir para a Marca do Fogo Caído (um dragão que, ao morrer, teve a carcaça transformada em taberna e hospedagem) para jogar cartas, beber e… roubar um do outro.

Em uma dessas jogatinas, quando todos (principalmente Amarelle) estão muito bêbados, acontece um pequeno incidente, causado pela briga de Jarrow e Ivovandas. Amarelle, influenciada por uma quantidade colossal de álcool, resolve tirar satisfações com Ivovandas, responsável pelo que houve. Depois de tirar satisfações, Amarelle tem a vida poupada com uma condição: roubar uma rua! LITERALMENTE! E aí o conto começa e minha sinopse acaba.

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Phyllis Eisenstein teve contos publicados em diversas revistas, como a “The Magazine of Fantasy & Science Fiction”, “Asimov’s”, “Analog” e “Amazing”. A autora é mais conhecida por suas histórias sobre Alaric, o Bardo (protagonista do conto deste livro).

As histórias de Scott Lynch, além de inteligentes, tem um senso de humor excelente e irônico. E não apenas as histórias e os personagens de Scott são assim: ele mesmo, na sua narrativa, é debochado, irônico e sarcástico. A qualidade de suas obras (e do conto de Theradane) são indiscutíveis.

— Em A Caravana Para Lugar Nenhum, sexto conto do livro, a autora Phyllis Eisenstein fala sobre Alaric, o Bardo, dos seus livros Born to Exile In the Red Lord’s Reach, que tem o poder de se teletransportar para onde quiser. Neste conto, Alaric é recrutado para uma caravana no meio de um deserto onde espíritos malignos ameaçam os viajantes à noite e as miragens não são apenas comuns, mas perigosas. É complicado falar mais sobre este conto sem soltar um spoiler. Na própria descrição deste (antes de cada conto, há um texto falando sobre o autor e uma pequena sinopse), falaram apenas da viagem em si. A Caravana Para Lugar Nenhum não é um conto mediano. Dá pra divertir o leitor, mas, em algumas partes, o conto é cansativo.

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Joe R. Lansdale é um autor texano, vencedor dos prêmios Edgar, British Fantasy, American Horror, International Crime Writer e nove prêmios Bran Stoker. Ele é mais conhecido por suas histórias de terror/thriller e escreve a série de mistério de Hap Collins e Leonard Pine (protagonistas do conto deste livro).

— O sétimo conto do livro, Galho Envergado, de Joe R. Lansdale, é veloz e violento. Nele, Lansdale usa seus dois personagens mais famosos, Hap e Leonard, uma dupla de… assassinos de aluguel? vigilantes? Não sei bem. O que sei é: ambos são parceiros, violentos e não tem escrúpulos.

A filha da namorada de Hap, uma prostituta viciada em drogas, se meteu em uma encrenca e, por mais que Hap não goste dela, ele precisa ajudá-la. Então, resumindo: Galho Envergado é uma história com muito tiro, violência e linguagem chula. Perfeito!

— Meu primeiro contato com o universo de A Crônica do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss, foi com o conto A Árvore Reluzente, o oitavo desta antologia, que tem Bast como protagonista.

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Patrick Rothfuss é autor da aclamada série “A Crônica do Matador Rei”, que já conta com os livros “O Nome do Vento” e “O Temor do Sábio”, além do livro-extra, “A Música do Silêncio”.

Apesar da história não ser a melhor do livro, o personagem em si me fez colocar O Nome do Vento na frente da “fila de espera para leitura”.

O conto acontece em um dia, e é separado em três partes: manhã, tarde e noite. Nele, Bast vai até o que as crianças chamam de “árvore reluzente”, um tronco galhos secos que já perdeu toda a casca, ficando totalmente branco. Ali, as crianças pedem que ele dê uma solução para os seus problemas e, para isso, pagam Bast contando-lhe segredos das pessoas. Porém, entre seus pequenos clientes, Bast acaba recebendo um pedido de socorro.

— Já Em Cartaz, de Connie Willis, é de longe o pior conto do livro. E quando digo “o pior conto”, não quero dizer que é o “menos

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Connie Willis é uma escritora estadunidense de ficção científica. Foi uma das mais prestigiosas escritoras do gênero nos anos 1980 e 1990. (wikipedia)

legal”, e sim que o conto é MUITO ruim!

Uma breve sinopse para vocês:

No futuro, uma rede de cinemas cria filmes fictícios, pois os jovens gostam mesmo de ficar nas lanchonetes paquerando (???), então, com muita alusão a filmes de sucesso, um playboyzinho que se acha malandro garotão quer conquistar a menininha “como num filme de cinema”.

Aaaahhh, não! Foi com muito sufoco que terminei de ler esse conto, e senti muita alegria quando ele terminou.

— O último conto do livro, O Príncipe de Westeros ou O Irmão do Rei, do psicopata autor George R.R. Martin, nos conta, segundo informações anotadas pelo arquimestre Guldayn, a história sobre a vida e os casamentos do príncipe Daemon (relato este que vai até o famoso evento conhecido como A Dança dos Dragões).

George R.R. Martin é um roteirista e escritor de ficção científica, terror e fantasia estado-unidense. É mais conhecido por escrever a série de livros de fantasia épica “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Ele foi declarado como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2011 pela revista TIME. (Wikipedia)

Neste conto, Martin segue o estilo de O Silmarillion, de J.R.R. Tolkien, fazendo um relato dos fatos. A história, de fato, é interessantíssima, mas Martin não se saiu muito bem com este tipo de narrativa, fazendo a história ficar, em alguns momentos, confusa e/ou cansativa. Uma pena!

Príncipe de Westeros e Outras Histórias é, no geral, uma excelente antalogia. Com contos em estilos variados e tendo apenas uma coisa em comum: protagonistas trapaceiros, vigaristas, canalhas. Não indico este livro apenas para os fãs de fantasia, mas sim para todos os leitores, seja lá qual o estilo de vocês. Provavelmente vocês o encontrarão nestas páginas.

Ficha técnica:

Título: Príncipe de Westeros e Outras Histórias
Título original: Rogues
Autor: Vários autores
Organizado por: George R.R. Martin e Gardner Dozois
Editora: Saída de Emergência
Capa: Brochura
Edição: 1º
Ano: 2015
Número de páginas: 480
Tradução: Petê Rissati, Taíssa Reis, Ana Resende, Eric Novello, Marina Boscato, Débora Isidoro, Ivar Jr., Carol Chiovatto, Ana Death Duarte
ISBN: 978-85-67296-36-4



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.