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É possível se divertir com Rebelde, apesar dos furos

Há meses atrás (há mais de um ano, na verdade) li Reboot (resenha AQUI), primeira parte da duologia homônima de Amy Tintera, e há um mês li o fim desta história no livro Rebelde. Eu li a primeira parte com um padrão pessoal de análise X e a segunda parte com a Y. Apesar das duas análises terem bastante em comum, a Y é mais crítica que a X.

Resumindo o parágrafo acima: serei tão justo quanto Ned Stark (mas não perderei a cabeça) e tão rigoroso quanto Pai Mei.

 

 

Em um mundo pós-apocalíptico, um vírus infecta jovens e, após estes morrerem (seja do motivo que for), os faz reviver minutos depois. Estes jovens acordam mais fortes, mais rápidos e com capacidade de regeneração mais eficiente. Quanto mais tempo a pessoa fica morta, mas hábil ela será ao acordar. A CRAH, uma organização governamental, visa capturar estes jovens para usá-los como soldados, mesmo contra a vontade dos reboots, como eles são chamados após reinicializarem (voltarem à vida).

 

Em Reboot, o leitor conhece Wren, uma jovem que foi assassinada e foi reinicializada 178 minutos após sua morte e, por causa disso, se tornou uma das armas mais mortíferas da CRAH, sem qualquer traço de emoção humana. Conhece também Callum, um outro jovem que reinicializou apenas 22 minutos após sua morte e, após chegar à sede da CRAH, vira discípulo de Wren. Através de Callum, Wren vai aprendendo a ter sentimentos e começa a se desgarrar da CRAH.

Já estão vendo algum problema no enredo já? Pois bem, continuemos!

 

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Edições de Reboot e Rebelde.

 

Já em Rebelde, segundo e último livro da saga, encontramos Wren e Callum em um refúgio para reboots fugitivos. O livro continua exatamente de onde Reboot terminou, após ambos terem liderado uma fuga em massa da sede da CRAH. Desta vez, a história é contada em duas perspectivas: a de Wren e a de Callum. Dentro do refúgio, vemos uma espécie de “ditadura” dos +60 (como são chamados os reboots mais forte, que ficaram mais de 80 minutos mortos). Simultaneamente vemos uma espécie de triângulo amoroso (bem desnecessário) entre Wren, Callum e Micah, o reboot com numeração mais próxima ao da Wren, líder da célula de refugiados e vilão do livro. O enredo de Rebelde é basicamente este.

 

A história desta duologia é bem divertida, apesar de seus (vários) furos. Acho a releitura de “mortos vivos” feita por Amy Tintera bem interessante, onde estes, ao invés de terem todas as suas emoções e necessidades extintas (com exceção da necessidade de comer), tem a capacidade de ter empatia inversamente proporcional ao tempo que a pessoa permaneceu morta, ao mesmo tempo em que a velocidade, força e capacidade de regeneração melhoram proporcionalmente ao tempo que a pessoa demora a acordar.

 

E com isso vem minha primeira crítica (que eu tenho desde o primeiro livro): “o amor salva”! Aparece Callum, bem garotão fanfarrão de colégio e faz Wren (uma máquina de matar) passar a ter empatia e… deixar de ser máquina de matar. Não, isso é batido e não cabia na história. Esse personagem saído diretamente de A Culpa É das Estrelas (pois eu o imaginei exatamente como o ator protagonista do filme) empobreceu bastante o enredo. Talvez se ele fosse colocado como um garoto amedrontado (já que a capacidade de empatia dele é a mesma de quando vivo) e que resolvesse aprender a matar e sobreviver por necessidade (mesmo se quebrando e apanhando no treino) e não por “amor” (literalmente pedindo pra apanhar), o personagem seria melhor.

Mas o que faltou em Reboot pra completar o “lugar-comum” apareceu em Rebelde, que foi o triângulo amoroso. E eu só consegui me perguntar “qual a necessidade disso???”. Amy Tintera colocou um personagem (Micah) com a numeração bem próxima de Callum, pra mostrar que “Callum se sentia inferior e tinha que reconquistar a amada”. Acho que basta dizer que isso foi muito, muito desnecessário!

 


Minha reação com esse triângulo amoroso.

 

Em contrapartida, houve um detalhe em Reboot que a autora Amy Tintera acertou em cheio: a CRAH fazer experimentos com os jovens que ficaram pouco tempo mortos, com a intenção de eliminar a capacidade empatia destes e aumentar seu poder de luta e regeneração, mas ao invés disso, fazendo-os perder todas as capacidades mentais, tendo surtos repentinos onde eles só tem uma necessidade: comer! Sim, um experimento que transforma os jovens em legítimos zumbis! Foi bem legal!

 

Reboot e Rebelde são livros simples e que podem ser divertidos (ao menos que o leitor seja muito crítico). As cenas de ação desta duologia são bem legais e o enredo é promissor, porém poderia ser mais aproveitado. A autora errou bastante a mão ao querer colocar romance e triângulo amoroso onde não cabia. Com certa força de vontade é até possível se divertir com estes dois livros!



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.