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SPETT.UMBERTO ECO A NAPOLI
(SUD FOTO SERGIO SIANO)

Em “Número Zero”, Umberto Eco mostra a receita para o mau jornalismo

Quando peguei Número Zero, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (autor de O Nome da Rosa), para ler, eu esperava um suspense com perseguições e muito tiroteio. Não tive absolutamente nada do que eu esperava, e devorei o livro como se fosse uma das comidas mais deliciosas do mundo (o que, se formos fazer tal comparação, era mesmo). Seu enredo: um grupo de redatores fracassados em sua real profissão é reunido para fazer um jornal. Tal jornal não tem o objetivo de informar, e sim de chantagear, manipular, atender a interesses de seu dono. Com uma similaridade enorme com a nossa realidade, Umberto Eco nos faz mergulhar fundo em um mau jornalismo completamente verossímil.

 

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A história, ambientada em Milão de 1992 (ano marcado por vários escândalos de corrupção), é contada como lembrança do personagem principal, o ghost-writer fracassado Colonna. Ele, que começa o livro se escondendo e em uma situação desesperada, nos dá uma retrospectiva dos acontecimentos que o levaram até o problema ao qual se encontra. E o livro é apenas sobre esta retrospectiva, o que nos deixa, no final, sentindo a mesma insegurança que o protagonista.

 

“Elegi 1992 para situar o livro porque nesse momento houve esperança, nasceu a operação ‘Mãos Limpas’ e parecia que tudo mudaria, havia a luta contra a corrupção, mas chegou Berlusconi e as coisas aconteceram exatamente ao contrário” – Umberto Eco sobre Número Zero

 

Colonna nos conta como ele foi contratado como redator do corrupto jornal intitulado Amanhã, o processo de criação das matérias, sua relação com o demais grupo (pequeno) de redatores, até que um deles (bem paranoico) começa a investigar uma pista relacionada à teoria de que, na verdade, um sósia foi morto no lugar de Mussolini, e começa a desenterrar uma perigosa conspiração.

 

O calo de alguém é pisado! Era de se esperar!

 

“… estamos nos acostumando a perder o senso de vergonha. (…) corrupção autorizada, o mafioso oficialmente no Parlamento, o sonegador no governo e na cadeia só os albaneses ladrões de galinhas. As pessoas de bem vão continuar votando nos canalhas. (…) É só esperar: depois que se tornar Terceiro Mundo de uma vez por todas, o nosso país será plenamente viável, como se tudo fosse Copacabana”.

 

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O jornalista Carmine Pecorelli, assassinado em 1979.

Número Zero foi inspirado na história real do jornalista italiano Carmine Pecorelli, assassinado em Roma em 1979. Carmine, descrito como “jornalista independente, com excelentes contatos nos serviços secretos” por Philip Willan, do The Guardian, editava um boletim de notícias, com o intuito de mostrar notícias comprometedoras e constrangedoras, que era enviado apenas para um público seleto de pessoas poderosas (exatamente como o Amanhã). O livro cita também várias figuras e episódios reais, como o ex Primeiro Ministro Aldo Moro, sequestrado e assassinado em 1978 (segundo Carmine, o sequestro de Moro foi orquestrado por uma “superpotência lúcida” e inspirado na “Lógica de Yalta”), o assassinato do Papa João Paulo I, o caso da Loja Maçônica Propaganda Due e o Golpe de Estado de Junio Valerio Borghese.

 

Com uma crítica a mau jornalismo sensacionalista e manipulador, Umberto Eco escreveu uma excelente obra que (assim espero) instigue o leitor a não acreditar cegamente em todas as notícias que vê em jornais e telejornais, e sim a pesquisar outras fontes e pensar em cima do que é noticiado. Além disso, a obra instiga a curiosidade no leitor de pesquisar sobre os fatos citados no livro.

FICHA TÉCNICA:

Título: Número Zero
Título Original: Numero Zero
Autor: Umberto Eco
Editora: Record
Ano: 2015
Páginas: 208
Capa: Brochura
Tradução: Ivone Benedetti
Idioma: Português
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-01-10467-0



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.