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Em “Revival”, Stephen King dá vida a Charles Jacobs, seu próprio Victor Frankenstein.

Stephen King já nos levou em um passeio a bordo de um carro mal assombrado, nos hospedou no Overlook, nos prendeu em uma cidade debaixo de uma redoma invisível, nos levou para 1963 através de uma rachadura no tempo e nos levou para um faroeste sci-fi com o último pistoleiro de Gilead. No meio de tantos atrativos, até fez uma pausa para nos levar para conhecer um palhacinho mais legal do que Patati e Patatá. Agora, em Revival, King fez uma versão moderna do clássico de terror escrito por Mary Shelley, Frankenstein ou o Prometeu Moderno.

 

Não, ninguém cria um monstro em Revival! O leitor não verá nem aquela versão dos desenhos de um cientista maluco em uma torre, dando vida a uma criatura com a ajuda de um raio, apesar da eletricidade ser um dos temas centrais do livro. “E como Revival pode ser uma versão de Frankenstein ou o Prometeu Moderno?”, você pergunta.

 

Vamos lá: no clássico de Mary Shelley, o estudante de ciências Victor Frankenstein resolve criar um ser vivo através de partes de cadáveres. Quando a criatura ganha vida, Victor fica tão aterrorizado que foge para sua cidade natal, deixando para trás sua criação. Victor, no decorrer de sua narrativa, deixa claro que não compreendia o horror que ele estava lidando, e que agora estava pagando o preço.

 

Assim como Victor Frankenstein, o Reverendo Charles Jacobs, de Revival, pode ser chamado de ”estudante” (apesar de ser autodidata) e, como o protagonista do clássico lançado em 1818, Jacobs ama o seu objeto de estudo ao mesmo tempo em que desconhece sua natureza.

Vamos aprofundar nossa visão de Revival!

 

A narrativa é em primeira pessoa, e o narrador é Jamie Morton. Após Jacobs aparecer atrás de Jamie, quando esse, aos seis anos, brincava de soldadinhos na frente de casa, ambos criam uma relação extremamente íntima. O Reverendo Jacobs tem um carinho especial por Jamie, e o trata quase como um filho. Desde essa época, Jacobs já nutre um amor pela eletricidade, e a estuda com a mesma devoção que adora seu Deus. Porém, após a morte horrenda de sua mulher e filho, Jacobs deixa de acreditar em Deus e volta toda a sua devoção para a eletricidade. Depois do que ficou conhecido como “Sermão Terrível”, o primeiro e último do Reverendo após a morte de seus entes queridos (e o que fez Jamie deixar de acreditar em Deus também), Jacobs deixa a Igreja e a cidade onde até então morava, e some por longos anos.

 

Quando o reencontro dos dois personagens principais de Revival acontece, Jamie está em um momento decadente de sua vida, enquanto Jacobs continua estudando a eletricidade. Nos tempos em que Jacobs era Reverendo, ele tinha apenas amor pela eletricidade, e usou-a em apenas uma pessoa, para curá-la. Porém, após a morte de seus entes queridos, Charles Jacobs passou a usá-la apenas em pessoas, olhando para elas como cobaias. Seu objetivo: conhecer o que existe após a morte, para saber o que aconteceu com sua mulher e filho. Uma coisa estava clara: assim como Victor Frankenstein, Charles Jacobs queria usar o poder de um deus. Mas, ao passo que Frankenstein criava vida, Jacobs flertava com a morte.

“A ideia para este livro está na minha cabeça desde que eu era criança. Frankestein, de Mary Shelley, foi uma grande inspiração para mim. Eu queria criar uma história o mais humana possível, porque a melhor maneira de assustar o leitor é fazê-lo gostar dos personagens”. – Stephen King em entrevista para a revista Rolling Stone.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno e Revival tem o mesmo tema: a responsabilidade do criador com a criatura, ou do estudioso com o objeto de estudo. Tanto Jacobs quanto Victor Frankenstein pecam nesse quesito: Victor ao abandonar sua criatura, quando ficou assustado; Jacobs, ao usar cobaias humanas e estudar a eletricidade de maneira irresponsável. Os dois personagens também estavam obcecados por seus estudos: Victor abandonou tudo para criar seu monstro, parando de se comunicar com a família, deixando seus cuidados pessoais de lado; Jacobs, que outrora foi uma boa pessoa, parou de se preocupar com o próximo, a ponto de deixar sua antiga personalidade de lado, tudo em prol do seu objeto de estudo. Ambos, Victor e Jacobs, também colocam em risco as pessoas que amam: os entes queridos de Victor começam a ser assassinados pela sua criatura, em retaliação ao abandono; em Revival, Jamie, a única pessoa que Jacobs ainda nutre algum afeto, é colocado em risco quando submetido aos experimentos com eletricidade, sob o pretexto de ser curado do vício de heroína.

 

Em entrevista para a Rolling Stone, King diz que a ideia para Revival estava em sua cabeça desde que ele era criança, quando leu Frankenstein, e que queria criar uma história o mais humana possível. Em outra entrevista, desta vez para a Revista Veja, Stephen King confessa que, além de homenagear Mary Shelley, ele também quis homenagear H.P. Lovecraft, e por isso, não usou a visão cristã do inferno, com fogo e enxofre. Porém, não foram só H.P. Lovecraft e Mary Shelley os homenageados. No início do livro, Stephen King dedica a obra “aos que pavimentaram seu caminho”, e cita nomes de autores como Mary Shelley, H.P. Lovecraft, Bram Stocker, Shirley Jackson e Peter Straub (co-autor de O Talismã e A Casa Negra).

“Queria que o fim do livro fosse infernal, mas também queria homenagear H.P. Lovecraft, e para isso não podia usar a imagem cristã do inferno, com fogo e enxofre. Sabia que precisava de algo terrível, mas não tive nenhuma ideia específica até o dia em que cheguei àquele ponto da redação. As formigas que aparecem naquela cena foram uma surpresa até para mim. Quando revisei o livro, acrescentei algumas formigas em outros pontos da história, para antecipar o final. E, como o narrador suspeita, aquela visão pode ter sido uma mentira perversa”. — Stephen king, em entrevista para a Revista Veja.

 

Revival é um livro para ser colocado entre as maiores obras de King, tanto pela qualidade da obra quanto pela homenagem prestada a alguns dos maiores autores da literatura mundial, que inspiram King no seu trabalho de escritor. Este livro também é um presente para os leitores, com um final que promete deixar qualquer um aterrorizado.

FICHA TÉCNICA:

Título: Revival
Título original: Revival
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Ano: 2015
Páginas: 374
Capa: Brochura
Idioma: Português
Tradução: Michel Teixeira
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-8105-310-3



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.