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FUMAÇA E HORROR ESCARLATE – A Batalha de Waterloo

Bernard Cornwell, inglês, nascido em 1944, mesmo ano em que os aliados invadem a Normandia como parte da Operação Dia D para libertar a França do jugo alemão na Segunda Guerra Mundial.

O mesmo B. Cornwell que criou Thomas de Hookton, seu lendário arqueiro que sedento de vingança pela morte de seu pai, nos apresenta a fabulosa Guerra dos Cem Anos entre Inglaterra e França como pano de fundo.

Bernard Cornwell

Bernard Cornwell

Ou ainda, o inglês que apaixonado por uma americana, teve seu Green Card negado, o que o fez ingressar na carreira de escritor – já que assim poderia viver seu amor sem a aprovação do governo norte-americano.

Pois bem, esse distinto senhor, que dentre as obras supracitadas, é responsável pelo desenrolar das aventuras de Richard Shape, militar inglês que vive peripécias durante o período Napoleônico e, naturalmente, de Uhtred – inglesinho nascido e criado no século IX que sequestrado pelo temível exército Viking da Dinamarca, nos leva a conhecer as Crônicas Saxônicas quando retorna de seu exílio compulsório para aliar-se ao rei bretão.

E eis, que após tantas grandes obras ficcionais, mesmo baseadas em pesquisas precisas e detalhadas, ele nos brinda com o primeiro livro Não-Ficcional: Trata-se de Waterloo.

Sua vasta obra encenada no período napoleônico certamente foi fundamental para a escrita de Waterloo, mas arrisco dizer que a fatídica batalha de Normandia, acontecida no ano de seu nascimento, também tem uma forte influencia em sua obra e em sua vida. Sem dúvidas, as duas batalhas mais conhecidas na história recente tem nuances e traços que chegam a ser interessantes de se observar. Bem, voltemos ao precioso livro recém-lançado no Brasil pelo Grupo Editorial Record, com tradução de Bruno Casotti.

Acanhonada sobre Hougoumont é um lembrete de que a Batalha de Waterloo não foi uma série de eventos distintos como os atos de uma peça de teatro. Ela é com frequência descrita dessa maneira, com um primeiro ato sendo o assalto a Hougoumont e o segundo, o ataque do Corpo de d’Erlon, mas é claro que os dois eventos coincidiram

A Batalha de Waterloo aconteceu durante 4 dias no ano de 1815 (há duzentos anos) e determinou o destino da Europa. Napoleão havia sido vencido e exilado em Elba na Itália anteriormente, mas em meados de maio de 1815 fugiu desse exílio e voltou com todo o seu poder e sede para reconquistar o trono que havia perdido.

Foi a batalha final da conhecida Guerra dos Cem Dias, até então travada entre França e Inglaterra, mas que contou com a coalizão entre a INGLATERRA, RÚSSIA, PRÚSSIA E AUSTRIA  contra o Imperador Bonaparte e sua armada, importante dizer que nesse ínterim o Conselho de Viena havia determinado que Napoleão era um bandido contraventor. Considerada como ponto de inflexão na história da Europa, a batalha interrompeu os avanços de Napoleão e foi responsável por restaurar a dinastia Bourbon na França e a retomar a soberania inglesa no século XIX. O responsável por isso foi o Duque de Wellington, que – naturalmente com o suporte de outros grandes militares – foi estrategista o suficiente para derrubar o igual – ou mais – estrategista Napoleão Bonaparte.

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Napoleão Bonaparte x Duque de Wellington

O LIVRO

Durante toda a leitura de Waterloo o sentimento é de imersão, o autor atingiu o objetivo de escrever a partir do ponto de vista dos que estavam vivenciando aquele acontecimento, mas, naturalmente, sem ter a real dimensão e significância do ocorrido.

Seu texto é leve e hipnotizador, nos leva a sentir as emoções de cada um dos lados, e digo sem sombra de duvidas que em alguns momentos me era impossível tomar partido. Era como se estivesse lendo um romance em que não conseguia definir quem era o mocinho e quem era o bandido. A humanidade (e desumanidade) dos personagens do livro me trouxe uma nova óptica diante dos fatos.

Depois da leitura fiquei um período pensativa, realmente, não há bons e ruins em uma guerra, não há vilões e mocinhos, não deve haver essa dicotomia entre qual é o lado certo e errado em uma batalha. Ambos são levados por seu interesse egoísta, vidas são arrancadas e interesses escusos são levados a campo em lutas como essas.

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Battle of Waterloo por William Sadler II – Pyms Gallery

Ambos protagonistas de Waterloo tomaram decisões acertadas e equivocadas durante o evento, e, sem duvidas, Napoleão foi quem mais colheu os resultados negativos de suas decisões, como diz um dos trechos do livro “É impossível contar a história de uma batalha porque muitos são os eventos entrelaçados e ninguém consegue desfazer os fios. Para alguns homens, foi tudo um borrão, um dia de terror em que eles viram pouca coisa além de fumaça”.

Waterloo de Bernard Cornwell é essencial para o entendimento da Guerra de Cem Dias e, principalmente, para os caminhos que moldaram a Europa e consequentemente, o restante do mundo ocidental posteriormente. Além de nos mostrar uma visão menos heróica da guerra, já que são homens e mulheres (registra-se casos de mulheres que se vestiram de uniforme e embarcaram na batalha) falíveis e humanos. Que fogem para um encontro romântico antes da batalha, ou que se escondem atrás da bebida e entorpecidos lançam-se sobre os inimigos. E, naturalmente, os que amam e escrevem cartas de despedida às suas famílias, como a do desconhecido Major Arthur Heyland à sua querida Mary que diz “Minha Mary, que as recordações a consolem porque os dias mais felizes de minha vida vieram de seu amor e afeição, e porque morrerei amando-a e com uma esperança ardente de que nossas almas possam voltar a se unir no além e não mais se separarem” e se foi, contabilizado entre um dentre os milhares de mortos na épica Batalha de Waterloo.

FICHA TÉCNICA:

Título: Waterloo
Título Original: Waterloo
Autor: Bernard Cornwell
Editora: Record
Ano: 2015
Páginas: 364
Capa: Brochura
Tradução: Bruno Casotti
Idioma: Português
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-01-10363-5



Daniele Modesto é psicóloga clínica, consultora na area de gente e gestão, entusiasta da area de negócios e do mundo corporativo. Leitora voraz, incapaz de passar mais do que um par de dias sem um livro na mão.