full screen background image
o-dom-livro-resenha-robertovies-experimento42

“O Dom”, de Robert Ovies, mostra a diferença tênue entre milagre e maldição

Imagine poder tocar uma pessoa morta ou morrendo, dizer para ela ficar bem e ela ficar totalmente sã. Pois é! Quando li esta sinopse em O Dom, de Robert Ovies, pensei logo em um livro bizarro estilo Cemitério Maldito, do Stephen King. Pensei em um enredo similar, inclusive: C.J. Walker (nosso protagonista) “cura” os mortos e doentes terminais, mas ao invés deles serem curados, demônios usam seus corpos e começam a matar os entes queridos das pessoas “ainda vivas”. Aquela história de terror cheia de cadáveres, sangue, morte e tripas espalhadas pelo cenário, sabe?

 

Porém… Não! Essa história não é a que você irá encontrar em O Dom.

 

C.J. Walker, um menino de nove anos, acaba ressuscitando o cadáver da amiga de sua mãe, quando a toca e sussurra “Fique bem”, durante seu velório. O fato em si, apesar de parecer macabro, é tratado como algo milagroso. O cadáver já embalsamado de uma mulher que faleceu, vítima de câncer, é completamente curado da doença. A cirurgia de embalsamamento tem a cicatrização de algo feito há quatro meses atrás (mesmo o procedimento tendo sido feito no dia anterior ao velório). Tal fato, apesar de extraordinário, acaba não sendo o tema central do livro, que trata, na verdade, do comportamento humano diante de tal fato.

 

Pensemos: qual o impacto de uma notícia dessas para o mundo? O que as pessoas não fariam para ressuscitar ou curar um ente querido? O que o Governo ou as Forças Armadas não fariam para ter um poder desses em suas mãos? O que a Igreja não faria para dominar tal “milagre”? Uma pessoa que, com apenas um toque, pode ressuscitar cadáveres ou curar pacientes terminais é valiosa demais, não? No início, as pessoas não sabem bem o que causou as ressurreições. Porém, quando o pai de C.J. Walker, movido pela ganância de enriquecer em cima do filho, solta tal informação para o mundo, a vida comum de C.J. Walker e sua mãe acaba para sempre. Pessoas cercando a residência de C.J., pedindo milagres; religiosos dizendo que CJ é Jesus Cristo e outros o comparando com o anticristo; Igreja, Forças Armadas, Governo, imprensa… Todos cercando o menino de nove anos de maneira implacável.

 

O Dom é, sim, um suspense maravilhoso! Não estou exagerando quando digo que, até a última página do livro, fiquei agarrado a esta leitura, tremendo, suando, não sabendo o que esperar das próximas linhas. Porém, esta obra é mais do que isso! Robert Ovies, ao escrever este livro, aborda o comportamento humano com um realismo impressionante. A história nos leva a inferir a situação narrada pelo autor na nossa realidade e, com isso, vemos que, sim, os eventos do livro aconteceriam de maneira bem similar, no mundo real. Uma mãe faria de tudo para que C.J. tocasse seu filho com câncer (ou que tenha falecido), fanáticos religiosos perseguiriam C.J. por causa de suas crenças. E os poderosos fariam de tudo para tê-lo em suas mãos. Afinal, será que ninguém pensaria em ressuscitar Martin Luther King, John Kennedy ou até mesmo Hitler?

 

Em suma, O Dom é uma ficção que se aproxima bastante da realidade, em se tratando da ganância, do fanatismo religioso e do comportamento humano em geral. O livro nos mostra um fato que deveria ser um milagre, mas acaba virando uma maldição para as pessoas diretamente envolvidas.

FICHA TÉCNICA:

Título: O Dom
Título original: The Rising
Autor: Robert Ovies
Editora: Verus
Ano: 2015
Páginas: 336
Capa: Brochura
Idioma: Português
Tradução: Paulo Ferro Júnior
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-7686-279-6



Raniere Sofia, 33 anos, criador da Encontros Literários, leonino, nascido em Angra dos Reis, morador do Rio de Janeiro, vascaíno, escritor, estudante de Estatística na UERJ, fã de Stephen King, Tolkien, Star Wars, Marvel, C.S. Lewis, Douglas Adams, e Doctor Who (começou a acompanhar a série clássica em 2014). Leitor compulsivo e cinéfilo.