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Rogéria biografia travesti

Rogéria: uma história fascinante, uma biografia nem tanto.

Já inicio essa resenha dizendo duas coisas:

  • Rogéria é o maior mulherão. Enfrentou coisas que só Jesus na causa. Um exemplo? Ditadura.
  • Eu não gostei do livro. Mas calma, vou explicar.

Eu adoro biografias. Não sou 100% fã de biografia de pessoas que mal completaram 20 anos, como Justin Bieber ou Demi Lovato, mas não deixo de confessar que adoro biografia de pessoas que fizeram algo relevante na minha opinião(desculpa, não vejo como uma biografia do Bieber poderia mudar minha vida artisticamente, como a da Janis Joplin mudou, então…), mesmo que estejam vivas.

Não, não acho que a pessoa tenha que ser defunta para ter uma! Pode ter em vida, imagina! Um exemplo de biografia que eu AMEI é a da Valesca, por exemplo (em breve, resenha aqui, no EL!). Não precisa esperar a pessoa morrer para deixá-la contar sua história. A biografia de Rogéria, por exemplo, teve muuuuita coisa boa de se ler. Fatos que ergueram minhas sobrancelhas, que me fizeram rir e que me deixaram com um aperto no peito. E Rogéria tá vivíssima da silva, muito obrigada!

No geral, a biografia da atriz foi excelente de ler, exatamente pela sua história cheia de nuances. Mas eu não posso deixar de dizer uma coisa: QUAL É A DIFICULDADE DE USAR O PRONOME FEMININO NO LIVRO? Sério, não tem uma vez em que se fale “a travesti” ou que diga que Rogéria é uma mulher. Sim, ela própria diz que não é uma transexual (ah, não? Ok, então), mas eu acho muito ofensivo ler “o travesti”, “os travestis”, “homem vestido de mulher” no livro todo. Isso foi muito difícil de engolir.

Veja bem: eu respeito a decisão de Rogéria de não querer usar o pronome feminino. Mas o mínimo que poderia ser feito era ter chamado algum especialista em gênero e sexualidade para não imprimir um livro cheio de bobagens como a seguinte:

Astolfo era gay e adorava fantasiar-se de mulher, mas não praticava o estilo travesti de vida.

GENTE, ESTILO TRAVESTI DE VIDA. SÉRIO.

Especialistas em sexualidade entendem que os travestis, em sua grande maioria, são biologicamente identificados com o seu sexo de nascimento. O padrão comportamental é sentirem-se, ao mesmo tempo, como homens e mulheres, não cogitarem mudar o sexo biológico e terem, geralmente, atração por pessoas do mesmo sexo.

Cara, não sei quem são esses “especialistas em sexualidade”, mas eu conheço uma pá de travestis que discordam absurdamente disso. Eu não vou explicar o problema de parágrafos como o citado acima (pelo amor de Deus, não sei lidar com isso), mas muito me impressionou que um livro com essa ausência total de um mínimo de pesquisa científica tenha sido lançado pela Sextante, que é uma editora que eu admiro muito.

Infelizmente, a quantidade de informações equivocadas sobre transexualidade, travestis, gênero, sexualidade e afins não me permitiu curtir a biografia do jeito que eu gostaria. A sensação que ficou é que o autor simplesmente quis dizer “Ser mulher é fácil, é só colocar maquiagem, cabelão, salto e peito. Olha, Rogéria conseguiu!”.

E não há nada mais ofensivo para uma mulher como eu do que ler uma bobagem dessas. Ser mulher é muito mais do que isso tudo. Para um homem entender, precisaria viver na pele o que é isso, coisa que o autor (diferente de Rogéria), não entende e não pareceu se dar ao trabalho de ao menos pesquisar antes de falar bobagens como “padrão comportamental de travestis” ou “sentir-se homem e mulher ao mesmo tempo”. Não é porque Rogéria se sente assim e acredita que exista um padrão, que isso isente o autor da responsabilidade de saber se realmente existe um padrão. Porque, não quero estragar a surpresa, mas: NÃO EXISTE. Posso citar dezenas de travestis que confirmam. Não existe padrão em nada que diz respeito a sexualidade e questões de gênero, gente. Pelo amor de Deus, é só jogar no Google que surgem milhares de artigos, acadêmicos ou não, sobre o assunto. Custava dar uma olhadinha?

No mais: Rogéria, que mulherão! Adorei saber da história dela. A edição está linda, repleta de imagens históricas, belíssimas. O livro é uma biografia de responsa, conta uma história de responsa em uma edição de responsa. A única coisa que estragou foi… bom, vocês já sabem.

rogéria livro

 

FICHA TÉCNICA:

Título: Rogéria – Uma mulher e mais um pouco
Autor: Marcio Paschoal
Editora: Estação Brasil
Formato: Brochura
Ano de copyright: 2016
Número de páginas: 239
Edição: 1
ISBN: 978-85-8041-527-8

 



Revisora, autora, embaixadora do Wattpad, professora de português, Kindle-lover, apaixonada por livros indies, autores nacionais, Kimbra, 30STM, Brandon Jay McLaren e RuPaul's Drag Race. Escrevia sob o pseudônimo de Sissy Walker, mas decidiu sair do armário e assumir a autoria de seu primeiro romance, "Lena - Abrindo as Asas".


  • Patricia Queiroz

    Tenho mas ainda não li. Achei que o foco do livro seria esclarecer sobre transexualidade e afins, como forma de combater o preconceito, e justo neste ponto foi confuso. Que coisa..