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Segunda Guerra Mundial, de Antony Beevor, mostra que a história nunca é absoluta

A história da Segunda Guerra Mundial talvez seja uma das mais estudadas, retratadas, revisitadas e reproduzidas do século XX; são inúmeros livros de autores de diferentes gerações e nacionalidades que se debruçam com seriedade e afinco a demonstrar as batalhas que desenrolaram e ceifaram milhares de dezenas de vidas e marcaram profundamente as gerações posteriores. A indústria do entretenimento explora de maneira incansável o apelo dramático e heroico da guerra, além de servir de instrumento subjetivo para a construção da imagem que a humanidade tem de quais são os heróis e os mocinhos do mundo.

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Antony Beevor.

Dentre esses escritores, temos o britânico Antony James Beevor. Nascido em Winchester no ano de 1946, Antony foi educado na Real Academia Militar de Sandhurst (centro de treinamento inicial dos oficiais militares do exercito britânico) onde foi aluno de Sir John Keegan, professor e escritor referência em conflitos bélicos, tornou-se oficial regular do 11º Regimento de Hussardos e deixou o exército depois de cinco anos para se tornar escritor, sua produção inclui livros essenciais ao estudo do tema, tanto ficcionais quanto de não-ficção, sendo que no Brasil foram publicados: Creta: Batalha e resistência na Segunda Guerra Mundial; Paris após a Libertação; Stanlingrado: O cerco fatal; Berlim 1945: A queda; O mistério de Olga Tchekova; A Batalha pela Espanha; Dia D: A batalha pela Normandia; A Segunda Guerra Mundial. O autor tem outros livros que ainda não tem edição em português.

Em A Segunda Guerra Mundial, Antony Beevor faz uma obra que se diferencia das demais pela inclusão de detalhes a respeito do porquê essa é a segunda parte da chamada Grande Guerra, e nos demonstra que ela, de fato, foi mundial, envolvendo todos os continentes do planeta. Sem dúvidas, esse livro quebra o eurocentrismo presente na maioria das obras sobre o tema e traz ao leitor a dimensão das batalhas ocorridas em diferentes países, principalmente fora da Europa.

Em sua obra, ele defende a ideia de que essa guerra foi uma “amálgama de conflitos”, opondo nações, mas que, essencialmente, tratava-se de uma guerra civil ideológica, entre a esquerda e a direita; para Beevor, essa foi a principal razão que deu origem ao conflito. Em sua tese, ele defende que a origem da II Guerra não aconteceu com a invasão nazista à Polônia, e sim com a longa batalha entre russos e japoneses, pela fronteira da Mongólia, quando o exército imperial japonês foi derrotado e, com isso, a estratégia dos japoneses de invadir a Rússia foi cancelada. Posteriormente, isso foi fundamental para que o Japão decidisse invadir as colônias francesas, inglesas e até mesmo atacar a marinha americana no pacifico.

630a5198-8096-4781-87a4-78580079590eAlém da descrição dos conflitos ocorridos na Ásia e Extremo Oriente, ele delineia que as batalhas entre China e Japão, bem como os conflitos entre nacionalistas e comunistas, foram fundamentais no desenrolar da guerra; talvez pelo seu amplo conhecimento de diferentes batalhas que aconteceram durante o período, fica evidente em seu livro o caráter sistêmico que caracterizou a II Guerra e, como dito anteriormente, ele demonstra que o principal motivo para a guerra eram os conflitos entre as ideologias de esquerda e direita, comunismo e nacionalismo, socialismo e capitalismo. Isso traz um entendimento maior de como os movimentos sociais do início do século XX, como a revolução bolchevique (que precede a Primeira Guerra Mundial) e a Guerra Fria (período notoriamente escancarado em termos de conflitos ideológicos), são interligados e jamais poderiam ser tratados de maneira isolada.

O escritor é extremamente detalhista em suas descrições das batalhas e consegue um feito interessantíssimo: ele articula com maestria a descrição dos pormenores da guerra, dos conflitos humanos e do jogo de interesses e política dos chefes de Estado do período. Beevor descreve a mente sagaz e polêmica de Churchill e suas hiperbólicas estratégias de ocupação; as decisões calculistas e frias de Stalin, capaz de sacrificar uma significativa parte de seu exército para garantir a vitória das batalhas; a mente pragmática, analítica e não menos fria de Roosevelt; assim como os demais personagens históricos fundamentais desse conflito, sem deixar de mostrar o contexto maior e sistêmico da Guerra. Sua obra é informativa, já que se baseou em um apurado processo de pesquisa de documentos históricos, e é ao mesmo tempo focada nos indivíduos que de fato foram protagonistas dos conflitos: as pessoas comuns que viveram e morreram nas batalhas. Outro ponto importante é que o livro em questão pode ser lido do início ao fim, ou como um manual sobre o tema, já que seus capítulos são bem específicos e detalhados com muitos mapas, modelos táticos e fotografias.

Esse autor, militar, discípulo de um dos maiores historiadores sobre a Segunda Guerra Mundial, descendente de uma família de escritores, nascido um ano após o fim das batalhas armadas da Segunda Guerra, natural de uma cidade batizada com o nome de um dos rifles mais conhecidos do mundo, parecia predestinado a imergir nesse tema, o que o faz de uma maneira muito interessante. Sua escrita é atraente, por vezes muito detalhista, por outras aparentemente superficial, mas de fácil acesso a qualquer leitor, independente do conhecimento prévio sobre os temas.

Ficha técnica:

Título: A Segunda Guerra Mundial
Título original: The Second World War
Autor: Antony Beevor
Editora: Record
Formato: Brochura
Edição: 1º
Ano da edição: 2015
Número de páginas: 952
Tradução: Cristina Cavalcanti
ISBN: 978-85-01-40166-3



Daniele Modesto é psicóloga clínica, consultora na area de gente e gestão, entusiasta da area de negócios e do mundo corporativo. Leitora voraz, incapaz de passar mais do que um par de dias sem um livro na mão.


  • Thiago A.

    Muito boa resenha Daniele, sou aficcionado sobre o tema 2ª guerra e já dei uma olhada nesse livro na livraria mas não comprei. Vou pegar os outros do autor (do qual sou fã) primeiro pra depois pegar esse.