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Um lugar de calma e ordem em meio ao caos e ao tumulto

Hoje cheguei mais ou menos ao fundo e percebo que preciso enfrentar a escolha de olhos abertos, devo francamente deitar fora toda a questão moral, como se fosse inadequado para minhas aptidões inatas?

Aos 28 anos de idade, um filho de uma família bem sucedida, com irmãos igualmente bem sucedidos, escreveu o que, em outras palavras, nada mais é do que uma ponderação sobre suicídio. Dois meses depois, decidiu que antes de se matar, faria um experimento. Durante 12 meses participaria da crença de que tinha controle sobre si mesmo e sobre a mudança de seu destino. Não tinha prova alguma de que isso era verdade, a questão residia na liberdade em acreditar; essa é uma passagem da vida de Willian James, médico psiquiatra, o que merecidamente tem o titulo de Pai da Psicologia dos EUA.

Existe um preconceito (ou conceito) relacionado ao que se chama de livros de autoajuda, muitas vezes por conta de livros e escritos baseados em palavras superficiais e um apanhado de ideias soltas pinçadas de um canto e de outro; não, definitivamente não é desse tipo de livro que se trata a obra de Duhigg. Ele não é de maneira alguma um livro sem embasamento e robustez. Duhigg passou duas décadas estudando e realizando um levantamento dos principais estudos e casos que explicam e explicitam o funcionamento dos hábitos e de como eles são imperativos na vida de todos nós. No entanto, se levarmos ao pé da letra o sentido do termo AUTOAJUDA, isto é, ajudar a si mesmo, esse livro merece, com muito louvor, essa definição.

O conceito primordial do livro é que os hábitos atuam, invarialmente, em nosso dia e dia, e em alguns casos é capaz de definir os rumos que daremos em nossa vida. Ele vai além, questiona o quanto de “liberdade de decisão” efetivamente temos em nossas trajetórias, já que fica mais do que explícito, nos dados coletados em seu livro, de quantos hábitos automáticos se apossam de nossos atos e decisões de vida. Em certo trecho do livro, quando menciona os estudos realizados pelo Departamento de Ciências Cerebrais e Cognitivas do Massachusetts Institute of Technology (MTI) nos EUA, nos idos de 1990, quando perceberam que determinada parte do cérebro chamada de Gânglios Basais (encontrados em cérebros de peixes e anfíbios – o que sugere sua presença evolutiva desde os primeiros estágios do desenvolvimento cerebral em diferentes espécies) estavam consistentemente atuando nos processos de memórias automáticas e, inclusive, dos hábitos.

“O Poder do Hábito”, de Charles Duhigo. Editora Objetiva.

A partir desses estudos, perceberam que animais com lesões nessa área do cérebro tinham dificuldades em realizar tarefas essências como aprender a atravessar labirintos e abrir recipientes de comida. Após um estudo apurado, em que eles conseguiram inserir certo dispositivo que ajudava a acompanhar o que acontecia no cérebro desses ratos enquanto realizavam um treinamento básico de aprendizado (eles precisavam aprender onde encontrariam comida dentro de um labirinto), nesse estudo, realizado centenas de vezes, eles observavam que as atividades cerebrais dos animais se alteravam e uma serie de mudanças surgiam lentamente, conforme o rato aprendia o caminho; sua atividade mental diminuía – à medida que o caminho se tornava automático, os ratos começaram a pensar cada vez menos!

Os hábitos, dizem os cientistas, surgem porque o cérebro esta o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço. Se deixado por conta própria, o cérebro tentará transformar quase qualquer rotina num hábito, pois os hábitos permitem que nossas mentes desacelerem com mais frequência

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Existe uma vantagem evolutiva em poupar energia e esforços; porém, por outro lado, uma postura desleixada e relapsa pode ser a diferença entre a vida e a morte da espécie, porque se nosso cérebro relaxa no momento errado, podemos deixar de perceber algum perigo iminente (seja um predador escondido atrás da arvore, ou um bandido nos seguindo pronto para nos atacar); aí que entra uma situação interessante: os gânglios basais desenvolveram um sistema inteligente para determinar quando e onde se deve permitir que os hábitos assumissem o comando (lembre-se que os hábitos são a maneira que nosso cérebro utiliza para poupar energia). Segundo os estudos do MIT – essa mudança acontece sempre que um bloco de comportamento começa e outro termina – esse é o grande X da questão e a partir daí o livro se baseia para todo o rumo que tomará; em nosso cérebro isso é caracterizado como um LOOP – um circuito, um círculo, uma volta, que se caracteriza por:

1. Deixa (um estímulo que manda seu cérebro entrar em modo automático)

2. Rotina (Pode ser física, mental ou emocional)

3. Recompensa (A ajuda que seu cérebro precisa para saber se vale a pena memorizar e entrar em automático ou não).

Para os cientistas do MIT e para a neurociência da cognição, os hábitos são inevitáveis – é a maneira que nosso cérebro evoluiu e se comporta. Mas eles podem ser ignorados, alterados ou substituídos.

A não ser que você deliberadamente lute contra um hábito – que encontre novas rotinas – o padrão ira se desenrolar automaticamente

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No decorrer do livro, Charles Duhigg fala sobre como podemos mudar hábitos individuais, hábitos das organizações e, finalmente, hábitos da sociedade.

Ele esclarece as questões mais interessantes a respeito de força de vontade, de determinação, de guinadas e mudanças de vida, de vício, de como podemos mudar, criar e aumentar habilidades, e o porquê de alguns conseguirem realizar mudanças e outros não. O autor nos dá um roteiro de orientação bastante objetivo de como descobrir nossos hábitos e o que fazer para substituí-los por hábitos mais funcionais e compensadores em nossas vidas. Sendo assim, retomo ao tema que já citei anteriormente, do quanto esse livro é autoajuda no sentido mais prático e sincero do termo. Você pode utilizá-lo para mudar aspectos de sua vida que não são favoráveis para você; exatamente como o Willian James – o psiquiatra que se tornou pai da psicologia norte americana – fez com ele mesmo, e posteriormente, estudou e compilou em sua obra prima The Principles Of Psychology (Os princípios da Psicologia) em que dedica um capitulo inteiro aos estudos de como funciona um hábito.

Para mim, Charles Duhigg produziu um grandioso livro, que, em uma linguagem fluída, divertida, interessante e muito simples, fala ao grande público o quanto podemos e devemos nos tornar senhores de nós mesmos e efetivamente realizarmos mudanças em nossos comportamentos e substituir os hábitos.

Toda a nossa vida, na medida em que tem forma definida, não passa de uma massa de hábitos – práticos, emocionais e intelectuais – sistematicamente organizados para nossa felicidade ou nosso sofrimento e nos conduzindo irresistivelmente rumo ao nosso destino, qualquer que seja ele

Willian James

Ficha técnica:

Título: O Poder do Hábito
Título original: The Power of Habit
Autor: Charles Duhigg
Editora: Objetiva
Capa: Brochura
Edição:
Ano: 2012
Número de páginas: 407
Tradução: Rafael Mantovani
ISBN: 978-85-390-0411-9



Daniele Modesto é psicóloga clínica, consultora na area de gente e gestão, entusiasta da area de negócios e do mundo corporativo. Leitora voraz, incapaz de passar mais do que um par de dias sem um livro na mão.